se vai ao longe? ou nunca se chega? Em terras do Índico, vamos abrandar...
25
Abr 12
Por devagar, às 13:38 | comentar | ver comentários (1)

Aqui respeitam-se os outros mas não há consideração por ninguém.

Parece paradoxal mas de facto não é.

No Maputo respeita-se a diferença. Ir a um restaurante do tipo classe média popular, como o Piri-Piri, e ver num convívio natural e pacífico gentes das mais variadas origens, credos e cores é vulgaríssimo. O mesmo se dirá da miudagem das escolas primárias e secundárias, que andam misturados em grupos - aqui o mainstream é mesmo multicultural. É quase regra comum a mesma família incluir membros cristãos e não cristãos, e todos se harmonizam e se juntam nas festas religiosas do outro.

É uma lição de vida ver como todos respeitam e são respeitados.

Mas não se consideram, sendo isto bem visível nas estradas ou ruas da cidade na forma como os locais conduzem as suas viaturas (na maioria importados do Japão), sem dar a mínima oportunidade a outros condutores, vistos sempre como o outro, significando o inimigo. Numa atitude competitiva, a ver quem passa primeiro, quem chega primeiro, não se facilitando a vida de ninguém, não se dando passagem e - podendo-se - sem sequer se obedecer à regra básica da prioridade...fico-me por aqui.

Também não se consideram quando, sem qualquer cerimónia, atiram a lata do refresco, as cascas da fruta e outras coisas quejandas pela janela do carro. A cidade está cheia de lixo fora dos contentores.

E há outras situações gritantes.

Os pobres nos bairros são descaradamente roubados por outros pobres também, por falta de emprego e de vontade de trabalhar a par da falta de respeito, consideração e solidariedade. Ninguém pensa que hoje rouba e amanhã é roubado.

Vive-se só o agora.

Se um pobre, habitante numa casa algures no emaranhado dos bairros à volta da cidade, compra um artigo de preço mais avultado, tipo rádio ou televisão, é frequente ser seguido desde a porta da loja até à de casa, que fica marcada para na primeira oportunidade ser assaltada, e roubado o objecto novo que depois se vende para ganhar dinheiro fácil e rápido. 

Vida de pobre é muitíssima difícil.

De criança pobre a vida também não é nada fácil.

Dependendo sobretudo dos cuidados maternos, vive pendurada nas costas da mãe, que se vê obrigada a levá-la para todo o lado, única forma de ir às compras, trabalhar... também com os passeios tão estragados da cidade nem valeria a pena ter um carrinho de bebé, solução de países com mais dinheiro, mas aqui impraticável.

E a criança sujeita-se...

Em toda a parte, e aqui também, qualquer mudança de hábitos acontece muito devagar.


04
Abr 12
Por devagar, às 11:14 | comentar | ver comentários (2)

Chegou um visitante - estrangeiro, classe média alta - a uma cidade de Moçambique e viu um pequeno hotel. Entrou e quis saber do tipo de quartos, do serviço de restaurante, como seria o mata bicho (=pequeno almoço) e propôs pré-reservar um quarto deixando 2.000 meticais de sinal, se encontrasse outro que lhe agradasse mais voltaria a levantar o dinheiro, caso contrário esse montante já ficaria como parte do pagamento.

O dono do hotel, homem da terra, concordou e o proponente partiu à descoberta de alternativas.

O dono do hotel, no entretanto, pegou nos 2.000 meticais e foi ao talho. Conversou com o proprietário e entregou-lhe os 2.000 meticais por conta do que lhe devia já há bastante tempo. O talhante agradeceu e pegou nos mesmos 2.000 meticais e foi a um dos seus fornecedores e entregou-lhe os 2.000 meticais para abater na sua conta corrente. O fornecedor ficou grato e pegou nos mesmos 2.000 meticais e foi à oficina onde arranjara o seu carro. Encontrou o dono e deu-lhe a referida quantia, que constituiu mais uma prestação da conta que com esforço vinha pagando. O mecânico agradecido levou os mesmos 2.000 meticais que entregou ao camionista que costumava trazer-lhe peças para a oficina, numa actividade paralela à das entregas oficiais de uma grande multinacional. O camionista, também grato, pegou nos 2.000 meticais e foi pô-los na mão da amiga (=trabalhadora do sexo) que o recebia e lhe dava conforto humano a troco de somas que chegavam certas, se bem que sempre atrasadas. Esta, por sua vez, pegou nos mesmos 2.000 meticais e foi entregá-los ao dono do pequeno hotel, que lhe facilitava a actividade não a pressionando com os pagamentos.

Passados alguns minutos, o visitante entrou na recepção do pequeno hotel e - uma vez que tinha encontrado alternativa mais do seu agrado - pediu os seus 2.000 meticais de volta, que havia deixado como sinal.

Todos ficaram felizes porque todos receberam dinheiro.

Nada aconteceu: tudo ficou igual ao que já era.

Como a economia africana: o dinheiro circula - devagar - e na essência, nada muda.


14
Mar 12
Por devagar, às 12:53 | comentar | ver comentários (1)

Diz-se do moçambicano, que sai de casa todos os dias para djobar (job =emprego em inglês). 

Inspirado no léxico britânico significa algo que é, de facto, diferente de trabalhar. Pelo menos para um ocidental habituado a regras, horas, prazos. Djobar é diferente, é aquilo que os bradas (adoptado do americano brother/bro) fazem, que são todos da mesma irmandade ou família, e que se unem contra o boss, necessariamente diferente dos bradas e, pelo menos no ver destes, pior. Esta é uma das razões (mas há outras) que explicam porque é mais fácil obedecer ao branco estrangeiro do que ao preto nacional.

Os expatriados esses deveriam trabalhar, e haverá muitos que o fazem, tal como uma minoria moçambicana, mas alguns também já aprenderam a djobar.

Os cafés estão cheios de malta a djobar.

 

E também é comum ver-se trabalhadores a dormir à hora em que deveriam trabalhar. Encostados às árvores, deitados no chão, sentados em cadeiras à frente de toda a gente, em qualquer repartição... Operários deixados à-vontade dormem. E se o capataz for um brada todos descansam, ou seja, djobam.

Se passearmos de manhã pela cidade a maior parte dos guardas (=porteiros) dos prédios e vivendas, estão sentados a dormir horas seguidas. É um facto que de noite dormem mal, e acordam cedo para varrer os passeios e tratar de encher os depósitos de água dos prédios. Se fizermos bem as contas dormem muito mais horas do que um adulto necessitaria. A alimentação é deficitária, e a energia vem do chá com várias colheres de açúcar que tanto bebem. Nos meses mais quentes, dorme-se muito mais durante o dia, o calor rebenta com qualquer um.

Depois há os malandros, que djobam o dia na pedincha, prometem guardar (e lavar) os carros assim que estacionamos, e depois baldam-se mas aparecem assim que voltamos para receber o dinheiro pelo serviço que não fizeram; impingem-nos o que não queremos comprar, andando de volta de nós como um mini enxame de abelhas e insistem até vislumbrarem alternativa - e recomeçam a ladainha.

Isto também é a malta a djobar...

As empregadas domésticas se conseguirem trabalhar para os expatriados são, nesta sociedade, altamente privilegiadas. Ganham muito mais do que os guardas e comem muito melhor. Algumas trabalham muito devagar - djobam também.

Tenho para mim que elas andam devagar para fazer render o trabalho por todo o dia, não vá a boss pensar que lhes paga muito.

Este país tem um muito sério problema de baixa produtividade.

Djoba-se sempre devagar.


07
Mar 12
Por devagar, às 18:35 | comentar

Se há algo verdadeiramente complicado é o cabelo das africanas, delas, o cabelo deles não tem qualquer complicação, basta andar curto ou rapado, como a moda sugere, que é fresco e higiénico.

Cabelo de africana é um full-time job, e dos que não pagam.

As moçambicanas que conheço e as que vejo na rua, mudam de penteado como a noite se segue ao dia, numa velocidade estonteante e repetitiva. Crianças pequenas já têm trancinhas, totós, por vezes enfeitados com laçarotes ou pérolas coloridas...Há africanas cujos penteados têm mechas, as que desfrisam, as que usam perucas, que se vendem no mercado e no cabeleireiro, de feitios variadíssimos, idem a qualidade e o preço, as que fazem tranças, com o próprio cabelo ou com mais algum que vão incorporando, curto, médio, longo...e loiro, ruivo, bem escuro, assim-assim. Num dia está de cabelo curto, no dia seguinte tem mini tranças presas num rabo de cavalo, que lhe fica muitissimo bem. Às vezes custa reconhecer quem nos cumprimentou...


As mechas vieram libertar a mulher africana da monotonia, são pedaços de cabelo...ou de um sintético a imitar cabelo, que nas mãos de quem sabe acrescentam volume ou comprimento, se transformam em tranças, largas ou finas, e fazem penteados elaborados para os dias de festa, com destaque para os casamentos, que aqui têm um protocolo complicadíssimo, chegando ao ponto de cada grupo (família da noiva, família do noivo, amigas da noiva...etc.) ir ao mesmo cabeleireiro, para se pentear da mesma forma, já se tendo vestido de igual, por vezes com muitos brilhos e sapatos inconfortáveis, mas usados como se nada fosse, com muita alegria e panache

 

 

A festa do casamento, dependendo do dinheiro de que se dispõe, dura dias e os penteados aguentam firme. Se houver cuidado, no mínimo, duram toda a semana seguinte, e claro está dão estatuto a quem os exibe no chapa, logo de manhã...

A mesma alegria e originalidade com que se vestem é aplicada com enorme êxito ao cabelo. Quando o dinheiro é pouco ou quando os anos abrandaram a vaidade, as mulheres usam um lenço colorido na cabeça, que dá um ar muito mais composto do que se andassem sem ele.

 

As moçambicanas mais novas gostam de se arranjar, são elegantes, ousadas nas suas seleções, assumidas nas várias formas que a natureza lhes deu, e aguentam sapatos inacreditáveis no dia-a-dia, muito altos ou de tirinhas infimas, sem sequer um ai. Vão ao cabeleireiro, a que chamam salão, tanto quanto a carteira permite, e chegam a esperar horas, mas como diz a Felismina: vale a pena senhora...fico tão bonita! 

Tudo continua devagar. 


27
Fev 12
Por devagar, às 14:11 | comentar | ver comentários (3)

As semanas são complicadas...e os fins de semana também.

Quando voltamos da Europa, demoramos algum tempo a habituarmo-nos à vida d'África, sobretudo a desligarmo-nos do mercado de consumo, da facilidade com que se compra uma revista, se come um gelado, se vai ao cinema, se passeia a pé...

Aqui, nos fins de semana as opções não são imensas.

Se quisermos sair do Maputo urbano, temos que nos organizar (mental e fisicamente) e nada funciona da mesma maneira. Andamos 'para trás' no tempo e não podemos contar com as facilidades da vida moderna. Dependemos de viaturas 4x4, 'colmans' para guardar os 'frios', comida cozinhada... e temos que, durante a semana, combinar o que se leva, quem leva, quantidades...E como há semanas muito cansativas, sobretudo devido ao calor e à humidade, temos necessidade de abrandar no fim de semana - sair do Maputo não é programa que se faça com imensa regularidade.

Aqui há o hábito de se almoçar fora em família ao Domingo, que também praticamos, sobretudo se nos desafiam. Porém, quando se come fora, (des)espera-se geralmente mais de uma hora... e não é por falta de pessoal, é mesmo devagar.

E há coisas (para nós) inconcebíveis, que são culturais e temos que respeitar...como restaurantes de dimensão pequena com música altíssima ao vivo no almoço de Domingo, a arruinar qualquer hipótese de conversa ... mas, a ajuizar pela frequência, é investimento de garantido retorno para proprietário de restaurante.

Ir para as praias, que distam centenas de quilómetros, nem sempre se pode. Resulta melhor se formos em grupo, porque implica organização e planeamento (infraestruturas e comidas) pois pode acontecer, em pleno verão, não conseguirmos um restaurante decente nalguns locais fora do Maputo: a escolha é limitadíssima, excepção feita à Macaneta, mas há que enfrentar um batelão pequeno, uma fila de carros à torreira do sol para o apanhar, e levantarmo-nos muito cedo para minimizar estes transtornos...e nem sempre estamos com disposição para isso.

Neste Janeiro, época das férias grandes, numa semana que passámos no Bilene só havia frango ou lulas, com batatas fritas cheias de óleo ou repolho cozido passado por óleo...e, apesar de muitas tentativas, nem um gelado conseguimos encontrar e estava um calor abrasador.

Os abastecimentos aqui são muito complicados, quando se vai em grupo leva-se tudo, que dividido por vários custa pouco, e se vamos só nós, temos que ter o maior cuidado para não sermos totalmente depenados enquanto nadamos (nalgumas praias 'desertas' há gente à coca)...

Mas a experiência do mar é tão absolutamente fantástica que vale sempre a pena o esforço da organização, da viagem e o calor.

E tudo isto se faz devagar.

 


17
Fev 12
Por devagar, às 07:43 | comentar | ver comentários (2)

A vida em Maputo está cara. Para os expatriados tugas, o dia-a-dia é mais dispendioso do que em Lisboa.

A razão principal é a valorização artificial do metical, que não corresponde a desenvolvimento sustentado, antes à necessidade de manter a estabilidade dos preços e evitar a todo o custo a inflação, para não haver perturbações sociais.

A memória das sublevações de Setembro 2010, que isolaram o Maputo do cimento...com pneus a arder nas ruas, bloqueadas pela população dos bairros, a greve dos transportes urbanos, o batalhão de desempregados na rua (cujo dia-a-dia é feito de biscates) a recusar o aumento do pão e do preço dos chapas, fez recuar quem decide: a rua venceu e os preços desceram. A lição foi aprendida, por um partido único que teme a oposição interna, quer popular quer dentro do próprio partido, e com eleições em 2014 é bom que tudo esteja calmo.

Há uma ano trocava-se 1.000€ por 47.000 meticais, agora aqueles euros valem apenas 34.500 meticais. Igual descida sofreu o dólar (e aqui tudo se reporta ao dólar). O preço do açúcar, produção nacional consumido em quantidades assustadoras, desceu. Estável o preço do pão, leite, arroz, amendoim, banana, frango e carapau.

Mas quem paga renda de casa em dólares sofreu aumentos substanciais, do tipo pegar ou largar (relatei no post anterior), os senhorios acertaram o cambio do dólar para manterem o seu equilíbrio orçamental. O parque habitacional de Maputo está caríssimo e a escolha diminuta.

Quem veio para aqui com um ordenado contratado em dólares de repente recebe muito menos todos os meses - e paga tudo mais caro. Aqui um café custa entre 40 e 50 meticais (se 1€ = 34,5 meticais...o café é mais caro que em Lisboa). Nos centros comerciais onde os contratos de arrendamento comercial têm de ser cumpridos, os senhorios exigem - agora - que as rendas sejam pagas em meticais, porque em dólares estão a perder dinheiro. Se sairmos de Maputo para a África do Sul o câmbio também se alterou, desta vez não a favor dos meticais. E a malta vai-se adaptando, até porque se tornou mais barato pagar as importações, mas quem importa não mexe nos preços: uma mão lava a outra e as duas lavam a cara.

O país tem um enorme manancial de riquezas, sobretudo gás natural e carvão, cuja exploração carece de investimentos avultadíssimos, que incluem infra-estruturas, um esforço brutal que envolve, entre outros, países como o Brasil, a Índia, a China e a Austrália. Desse ponto de vista, o país cresce ao ritmo que as grandes corporações tanto gostam, quando apresentam os lucros aos accionistas.

 

Aqui no Maputo nada se sente, nas escolas não se investe, na formação de professores também não, fala-se em off da possibilidade da Frelimo abrir a sua própria universidade (?), e a população vive agora exactamente como vivia há um ano.

Contudo, os ventos de mudança estão a avançar, apesar de muita gente ainda se não ter apercebido, e Moçambique é agora altamente apetecível para quem tem músculo financeiro.

No dia a dia tudo devagar.


07
Fev 12
Por devagar, às 13:31 | comentar | ver comentários (2)

A morar desde meados de Agosto de 2010 em apartamento arrendado no Maputo, que encontrei em anúncio do jornal, com as características que consideramos essenciais, sentia-me privilegiada face a imensos amigos e conhecidos que relatavam ter vivido situações extremas na sua relação com os respectivos senhorios, havendo casos em que o senhorio avisara, de supetão, que tinham que sair - com os respectivos tarecos - no prazo de 5 dias, o que não é tarefa fácil, to say the least.

Tenho um senhoria moçambicana de gema, que assinou connosco um contrato de arrendamento a 1200 USD por 2 anos, renováveis por iguais perídos e com 200 USD de aumento, e que se orgulha de, em tempos idos, a sua família, negra, ser a excepção a residir num apartamento em prédio de brancos e na zona branca da cidade (este mesmo que arrendamos). Essa excepção deveu-se ao facto do seu pai ter pertencido à PIDE/DGS, de que ainda hoje muito se orgulha, e que explica que nas suas veias 'corriam as cinco quinas' e que a impedia de se identificar com a sociedade em que vive, por ter sido educada 'com outros princípios'.

Balelas.

Vila Algarve, perto do meu apartamento, antiga sede da PIDE....em ruínas.

 

Regressados de Portugal a 8 de Janeiro, insistiu com telefonemas e sms nonstop, em ter connosco reunião. Nela, alegou que teria que pagar renda mais alta ao senhorio dela (no apartamento de que é arrendatária) e queria saber 'o que é que nós tinhamos a dizer e como a poderíamos ajudar?'.

Respondemos nada, lamentávamos, porém essa situação não nos dizia respeito. Dissemos mais coisas mas não vêm ao caso.

Não aceitou, insistiu, mostrou um papel onde tinha rabiscado vários cenários, agradando-lhe mais o de 1500 USD mês, mas tinha hipóteses que chegavam aos 1800 USD. Frisámos que tínhamos um contrato até Agosto. Ignorou o que dissemos.

Fomos fazer uma prospecção do mercado, andei à torreira do sol a ver apartamentos, nesta zona e com as condições de segurança e higiene de que não abdicamos, cansei-me a subir e descer escadas, a ver gente esparramada a dormir em cima de sofás, embrulhada em mantas de lã, com o ar condicionado no máximo, enquanto me mostravam um apartamento habitado, em que abriam portas de quartos e WC's com pessoas lá dentro (e que eu dispensava ver...) sem qualquer respeito nem por quem estava a visitá-lo nem por quem ali ainda residia e pretendia fazer do arrendamento o grande negócio da sua vida.

No Maputo há falta de apartamentos, há empresas que chegam aqui e arrendam tudo o que há para os seus funcionários. O dólar desceu face ao metical, que é mantido alto para que não haja inflacção e se contenha qualquer semente de contestação social. O preço dos arrendamentos é absolutamente especulativo: se o governo baixa o dólar, o moçambicano sobe a renda, são os estrangeiros que pagam e esses não contestam...

Depois de muitos telefonemas, muitos estafanços a ver apartamentos, a ficar de cabelos em pé com os preços pedidos e muitas histórias rocambolescas ouvidas à mesa do café....fomos ao encontro da senhoria, no cenário médio, por ser mais barato do que qualquer vislumbre de mudança.

Aqui os contratos - e disse-nos isso mesmo a senhoria - 'não servem para nada' até porque os tribunais não funcionam, ou fazem-no tão devagar que nem vale a pena.

 


27
Jan 12
Por devagar, às 13:46 | comentar

Vou transcrever um excerto de uma entrevista do jornal Notícias de hoje, para reflexão de quem vive alheio às realidades deste imenso país, onde 83,8% da população feminina dos 15 aos 49 anos, está casada, em união de facto ou sem parceiros fixos ... e não usa qualquer método anticoncepcional.

 

A entrevistada é Paula Muchanga, 26 anos de idade.

És casada?

Não, mas tenho filho

Onde está o pai do teu filho?

Na África do Sul, mas já não está comigo e nem me ajuda a criar o nosso filho.

Estudaste até que classe?

Conclui a 7ª classe e parei de estudar quando engravidei.

Com quem vives?

Com minha mãe, minha avó e minhas irmãs.

Onde está seu pai?

Está na casa dele com outra mulher. Deixou minha nãe e voltamos com ela para a casa da minha avó.

Tens quantas irmãs?

São duas, mais novas.

Elas estão a estudar?

Estudavam até 2011. As duas concluíram a 10ª classe, mas não vão continuar porque a mãe não consegue mais comprar material escolar e pagar o aluguer da casa. Mas aquela que segue a mim tem bebé de 3 anos e a mais nova com 14 já está grávida.

Vocês conhecem a pessoa que engravidou a vossa irmã mais nova e o pai do filho da outra irmã?

Não, a mais nova voltou da escola grávida. Estudava em Chidenguele e cá só vinha nas férias.

E o pai da criança da outra tua irmã ajuda?

Também não o conhecemos.

O que faz a tua mãe?

Também só vai à machamba (=horta).

Então todas vocês têm bebés e todas não têm maridos, e nem sequer a vossa mãe conhece os pais dos vossos filhos?

Sim.

Mas gostariam de ter um relacionamento sério?

Queremos muito.

O que dizem os homens que namoram convosco sobre o casamento?

Não dizem nada.

Já ouviste falar de planeamento familiar?

Ouvi no hospital.

O que é planeamento familiar?

Não sei explicar.

Alguma vez usaste o preservativo?

Já vi na loja, mas nunca usei.

Tiveste quantos namorados?

Dois.


Isto tudo a cerca de 350km do Maputo, no povoado do Chitongo.

Prevenção do HIV? promoção da igualdade de género?

Tudo muito devagar, milhões de dólares gastos.


16
Jan 12
Por devagar, às 07:41 | comentar

Só há pouco tempo percebi o que queria dizer a frase, que sempre pensei ser fruto de um qualquer delírio adolescente, apanhados pelo clima, de facto não é uma qualquer imbecilidade desprovida de sentido.

Eu explico: liga-se àquilo que neste blog se apelida de Tuga, ou seja, um ser que, sendo representativo de um certo Portugal, talvez pimba, provinciano, deseducado, deslumbrado, e fiquemos por aqui, não é representativo dos portugas em geral, só de uma facção.

Hoje, vou falar do Tuga macho, noutra qualquer altura falarei da Tuga, que também tem que se lhe diga.

Ora bem, o Tuga chega a Moçambique e é alguém, porque fala português e é branco. Estas duas características, de que usufrui por mero acaso geográfico e genético, dão-lhe aqui um certo relevo, que advém do passado colonial a par da ideia de que o branco - português ou não, mas a preferência vai mesmo para o português, por ser mais fácil a comunicação -  sabe muita coisa e paga melhor que os conterrâneos.

Então, o nosso Tuga depara-se com uma certa deferência, dão-lhe a passagem, tratam-no por boss, obedecem rápido às suas ordens, passa à frente nas filas, é atendido primeiro...e o Tuga fica deslumbrado. Depois veste-se de forma bem descontraída, porque o calor aqui aconselha isso mesmo, grandes t-shirts a tapar a barriga proeminente, calção abaixo do joelho e havaiana. E lá anda ele pelos cafés, sempre grande, espaçoso e...feliz.

                          Do filme O último voo do flamingo de João Ribeiro

Acontece, também, que lhe é fácil conseguir companheira(s), que gostam da forma como o Tuga as poderá tratar, já que por aqui abunda a promiscuidade e o pouco dinheiro para o sustento da casa, e a moçambicana que quer sair deste ciclo infernal sabe que apanhar um Tuga e dar-lhe uma volta apimentada...é uma estratégia de êxito.

Pouco depois de chegar, o Tuga já tem companheira, que lhe lava a roupa, cozinha e que com ele faz o que o Tuga nem imaginou exequível no vale dos lençóis, veste-se como gosta, anda nas patuscadas do churrasco e da cerveja ao fim de semana. Tem uma vida com que nunca sequer sonhou.

E nada disto aconteceu devagar.

Foi num ápice que ficou apanhado pelo clima.

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03
Jan 12
Por devagar, às 20:46 | comentar

Estou prestes a voltar para o Maputo. Muito ficou por fazer e muito foi feito, sempre esta sensação de que não consigo  cumprir uma lista mental que ninguém - a não ser eu mesma - escreveu e quer cumprir.

Sei que vou ter que andar devagar e vai saber-me muito bem.

Sei também que vou voltar a ser TUGA e disso tenho pouca vontade, é que as histórias tugas em Maputo deixam-se quase sempre com vontade de não pertencer ao grupo.

Eu explico.

Se nós aqui consideramos que o português tem pouca consideração pelos outros, e se nós aqui pensamos que tem sido lento o processo que levou os portugueses a tornarem-se no dia-a-dia cidadãos europeus, com comportamentos racionais, então quando os exportamos para Moçambique toda a consideração pelo próximo desaparece e os comportamentos tornam-se irracionais, e é claro que nos custa levar a etiqueta TUGA no peito.

Um à-parte: deste grupo exluo os políticos porque são de facto diferentes, se calhar oriundos de outro planeta, e que gostam de ir ao Maputo e passear na Julius Nyerere, artéria muito principal da cidade, cheia de bons hoteis e restaurantes, e distribuir muitos sorrisos, vestidos da forma mais informal que conseguem.

Para que me compreendam vou relatar um só episódio tuga: há cerca de 3 semanas, uma senhora tuga não gostou de ver uma camioneta parada em segunda fila na 24 de Julho, a descarregar vidros e alumínios para obra em execução. E sabe-se lá por que razão, chamou a si o caso. Refira-se que a referida senhora tinha o seu carro um 4x4 estacionado ali e podia sair à-vontade. Então foi à carrinha e retirou a chaves da ignição, preparando-se para se ir embora com as chaves.

Nem faço comentários.

O condutor da camioneta viu a senhora e dirigiu-se ao referido 4x4. A tuga mostrou enorme surpresa por se tratar de um branco - "julgava que o motorista da carrinha era um preto" - e colocou a chave da camioneta entre as pernas, em atitude de desafio, e falou de forma desabrida, como se se tratasse de polícia de trânsito.

A situação manteve-se em níveis aceitáveis porque a tuga estava acompanhada de uma filha adolescente, que ficou muito envergonhada e pedia à mãe para devolver a chave e ir-se embora, e o condutor da camioneta, depois de desligar o 4x4 (porque senão a tuga ía mesmo embora), teve consideração pelo o óbvio sofrimento da miúda e absteve-se de dizer-lhe mais.

Sobre a matéria fico-me por aqui, e não escrevo mais porque nos diminui.

Mas são estes episódios que me fazem querer não ser tuga.

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