se vai ao longe? ou nunca se chega? Em terras do Índico, vamos abrandar...
12
Nov 13
publicado por devagar, às 19:53link do post | comentar | ver comentários (1) |

Maputo está diferente desde que os raptos de 3 pessoas da comunidade portuguesa foram divulgados nos principais meios de comunicação social.

Não é algo perceptível ao primeiro olhar, é preciso já cá estar há algum tempo para absorver esta onda triste e silenciosa que vai percorrendo amigos e conhecidos e persiste em não desaparecer. As pessoas não gostam de verificar a sua própria impotência perante os acontecimentos que se deram e fizeram o pleno nalguns jornais portugueses que enviaram jornalistas de primeira água para reportar.


O ambiente pesado que se vive resulta também da percepção de aquilo que parecia ser um caminho seguro e sustentável para o desenvolvimento poder, de repente, deixar de ser uma certeza e não ser nem caminho, nem seguro, nem sustentável.

Os restaurantes à noite têm pouca gente, os parques infantis estão sem crianças, as pessoas questionam-se se isto irá passar ou continuar e por quanto tempo, e esta incerteza gera altos níveis de ansiedade.

Obras aprazadas vão-se adiando, compras orçamentadas também - já agora o melhor é esperar.

Amigos de cá dizem-me que estas situações não são inéditas, que se verificam em países em desenvolvimento, perante o aparecimentos de abundantes recursos naturais, dizem-me também que são situações que não perduram. E todos queremos acreditar que sim.

As recomendações do Consulado mantêm-se: muita cautela, não facilitar, e chegam por mail e facebook.

Também me chegam emails sobre o que fazer no caso de ser raptado e como reagir a SMS ou chamadas ameaçadoras.

E há pessoas que não saem de casa, tolhidas pelo medo, ficam presas nessa armadilha.

Coisas que há pouco tempo não fariam sentido nenhum.

Há uma evidente contenção social a par de uma vontade (muito) decidida de se acreditar num futuro novamente normal, com problemas normais.

A rotina, o dia-a-dia sem surpresas, a vida calma desta cidade, coisas que de repente todos (re)valorizam tanto.

Tudo mesmo devagar.

 


04
Out 13
publicado por devagar, às 10:28link do post | comentar |

1. No Jornal 'A Verdade' de hoje:

O abandono de fetos e corpos nas lixeiras tem sido notícia recorrente nos órgãos de informação moçambicanos. A insensibilidade das pessoas que cometem esse tipo de actos tem sido de tal sorte que elas chegam a deixar fetos ou recém-nascidos envoltos em lençóis, plásticos e sacos à sua sorte nas valas de drenagem, nas latrinas, talvez para dificultar a descoberta dos casos. Todavia, isso configura um acto deliberado de assassinato, que se pode equiparar a um infanticídio. Trata-se ainda de uma acção que viola o princípio segundo o qual “todo o ser humano tem direito à vida”[...]

in Diário de um Sociólogo


2. Poucas palavras:

Estamos num país que faz parte da CPLP. O ensino faz-se em português, que é a língua comum do Rovuma ao Maputo. Porém, exceptuando as elites que são reduzidas, não podemos pensar que se fala português, fala-se algum português. E se não falarmos devagar e com as palavras que ouvimos os locais utilizarem, ninguém nos compreende. Também não nos contestam - porque é essa a forma de estar - a comunicação é muito complicada.

 

Meninos a dormir na Av. 25 de Setembro (Baixa de Maputo), in quivismo.blogspot.com

 

3. Barulho:

O barulho faz parte intrinseca do dia-a-dia. Fala-se alto, buzina-se muito, grita-se com facilidade. É transversal à sociedade e às faixas etárias. No prédio onde moro há uma dependência onde mora uma família que tem uma criança pequena, ainda não terá feito 2 anos. De manhã, quando saio de casa, a criança geralmente está a chorar. E a música, repetitiva e incomodativa, a bombar alto. Ninguém parece fazer a relação, e eu penso naquele provérbio - é de pequenino que se torce o pepino - mas nem vale a pena dizer isso alto, que ninguém me iria compreender.

 

Tudo a continuar devagar. 


16
Set 13
publicado por devagar, às 10:09link do post | comentar | ver comentários (6) |

Aquele provérbio contado ninguém acredita...aplica-se ao que vou escrever.

As grandes empresas  têm um mega trabalho a escrever e aplicar procedimentos. Fazer tudo by the book é muito difícil quanto mais não seja porque universalmente se resiste à mudança. Há empresas que trabalham nonstop e que por isso organizam o trabalho em turnos. E, porque o trabalho é pesado, incluem pausas e snacks. O que a malta até aceita na boa, não fosse o snack ser uma barra de cereais. O snack é difícil de engolir, porque nem se gosta, nem enche barriga, nem dá gozo nenhum. E nem vale a pena falar-se em regras de higiene ou calor que deteriora os alimentos. O que se quer é arroz e patas de galinha, que se roem com o maior prazer e não fazem mal a ninguém.

Outros exemplos do contado ninguém acredita:

O casamento tradicional é o casamento, os outros poderão ter algum interesse mas o tradicional tem o estatuto mais elevado. Inclui um coro que canta (e bem) e que o faz durante um tempo longo, independentemente de quaisquer outras considerações, mesmo num prédio, ocupando as escadas por onde ninguém mais passa, a horas despropositadas.

No posto da gasolina não devemos arriscar dizer para encherem com X meticais, porque se leva tudo à letra, e mesmo que venha por fora continua-se até fazer aquele montante.

Quando se vai apanhar um voo interno, mesmo com bilhetes confirmados e reconfirmados, temos que ter cuidado e chegar mesmo cedo, porque se não temos cautela alguém que estava em lista de espera foi posto no nosso lugar, e remeteram-nos a nós para a dita lista de espera sem fazer cerimónia, e depois já de nada vale reclamar.

Nas grandes empresas o controlo do combustível gasto pela frota automóvel, em relação aos quilómetros feitos, é tarefa árdua e tantas vezes inglória; há sempre quem roube e dizem até que ser condutor de um veículo pesado é o mesmo que possuir um ATM, e quanto maior e mais pesado for o veículo, mais recheado estará o ATM.

De facto, os incautos que pararem no meio da estrada com falta de combustível longe de tudo e todos, podem contar que aparece alguém com combustível para vender (extraído dos ATM que circulam nas estradas), e é preciso negociar para pagar um preço razoável, até porque esta é a única assistência na estrada.

E é assim, e tudo isto a fazer-se sempre devagar.


25
Ago 13
publicado por devagar, às 17:05link do post | comentar | ver comentários (8) |

Há aqui um muito grave problema de produtividade, poucas vezes as situações decorrem como se planeou, porque acontece qualquer coisa não prevista.

Já me referi do vírus AF (African Factor), mas a produtividade a que me refiro vai muito para além disso.

Há várias semanas que temos cortes de energia diários, às vezes duram poucos minutos, outras vezes horas. Todos sem préaviso. Com eles falta a net e a televisão também não funciona. Se temos prazos para cumprir que dependam do envio de um email - e para mim quase tudo depende disso - começamos a ver a vida a andar para trás.

É que a produtividade da net é também um problema. Contratámos o serviço da TV Cabo, que nos dizem ser a opção mais funcional e viável, pagamos todos os meses para ter velocidade e capacidade para downloads que nos permita trabalhar sem stress.

Mas não acontece.

Enviar documentos pode ser uma aventura. Há dias demorei cerca de hora e meia para enviar 9 documentos em Word, cada um com cerca de 3 páginas e sem nada pesado. A net estava lenta e tive que enviar dois a dois, como pelo meio caía a luz, tive que recomeçar muitas vezes.

Mas era urgente e eu tenho cara e vergonha.

O que não é o caso de muitas pessoas.

Há dias tínhamos uma reunião marcada com alguém importante e com função cimeira em empresa muito conhecida.

Preparou-se tudo, com pormenor, revisão, cópias, encadernações, horas de fim de semana.

Saímos com tempo para chegar antes da hora. Estacionar o carro na baixa é uma odisseia, envolve sempre dar dinheiro a alguém que promete guardar o carro e que desaparece logo que tem a moeda no bolso. Fica-se com o credo na boca para estar tudo dentro do carro ao regressarmos. Uma vez que chegamos temos ainda que preencher papeis e mostrar identificação para podermos entrar. Um processo que pode ser muito lento. Mas há que manter o sorriso na cara, até porque a opção contrária já foi tentada, mas não obteve êxito.

Foto de Da Ponta do Ouro ao Rovuma (blog)

Esperamos o elevador e dirigimo-nos para o andar onde íamos ter a reunião, porém o interlocutor não estava. Nem tinha ido todo o dia. Nem nos tinham avisado, apesar de terem todos os nossos contactos.

E novamente sorriso na cara, e remarcação para a semana seguinte.

Uma tarde perdida, montes de coisas que poderiam ter sido feitas e foram adiadas - para nada.

Podia referir outras situações, como quando para se desalfandegar um produto que chega de avião porque muito urgente e estando a papelada toda em ordem, nos fazem ir 3 vezes fazer o que é simples e poderia fazer-se de uma vez só.

Foto de Macauhub

Amanhã a FACIM abre ao público, desde há 2 anos que decorre não na cidade do Maputo mas a cerca de 30 km em Marracuene, não há transporte organizado para levar os expositores e todo o pessoal que terá que se deslocar diariamente para o recinto. Maputo está cheia de pessoas que vieram para a feira e que hoje foram até lá para verificar stands e materias, acertar os pormenores de última hora, regressaram cansados e pessimistas, porque tudo estava atrasado e não havia responsáveis com quem falar.

Eu não fiquei nada surpreendida.

Tudo continua a andar extremamente devagar.

 

 


05
Ago 13
publicado por devagar, às 20:39link do post | comentar | ver comentários (4) |

...escrevo aqui sem saber bem porquê. 

Explico: iniciei um projecto light, com humor, amigos saberiam da minha second life no Maputo sem grande esforço, e eu passava a escrito uma experiência social riquíssima e, neste mundo em globalização, potencialmente interessante para muita gente.

À medida que o tempo foi passando, e já há quase 4 anos que iniciei este blog, fui-me apercebendo dos enormes problemas que os Moçambicanos - a gigantesca maioria deles - enfrentam sem esperança no dia-a-dia.

Tem sido crescentemente difícil abster-me desse contexto.

Regressei há dias da Europa, onde fui ver a família e dei um salto a Strasburg, para concluir um projecto. A crise que a Europa enfrenta, e com que Portugal se debate diariamente, é nada comparada com o quotidiano da miséria daqui.

    Lixo nas ruas de Maputo: é assim por todo o lado.

Há mais problemas no país, mais dificuldades no diálogo político e na circulação viária na zona centro, há mais lixo nas ruas, mais mortes nas estradas (por fim de semana no Maputo morrem cerca de 35 pessoas em acidentes de automóvel), e mais cerveja por menos dinheiro: compram-se 3 cervejas por 100 meticais (cerca de 2,5 €). A nova campanha ajuda a manter alta a estatística dos acidentes e faz esquecer o quotidiano pesado: nos fins de semana, pelas ruas do Maputo, há inúmeras barraquinhas onde grupos bebem cerveja a ouvir música que vem das colunas instaladas nas bagageiras dos carros e que bombam um som. Por vezes sentam-se no passeio, ou em caixas de madeira, outros sítios há com cadeiras de plástico...estão todos cheios. E a poluição sonora atinge níveis absolutamente inacreditáveis. 

E de tudo isto se faz o quotidiano de desespero desta cidade.

Mas é um desespero bem disposto e sorridente, e nisto África é única. E talvez seja isso que permite a sobrevivência.

É claro que há outros Maputo, mas são mesmo minoritários, e incluem até gente que muito aprecio, gente que é muito capaz e muito gente, mas compreendo que não vão conseguir fazer a diferença.


26
Jun 13
publicado por devagar, às 14:28link do post | comentar | ver comentários (2) |

Por aqui o dia-a-dia das pessoas continua muito devagar.

Começou e acabou a greve dos médicos e enfermeiros. Cerca de um mês e com resultados quase nulos.

A população sofreu maningue, mas a população aqui está habituada a sofrer e a partir de uma certa idade considera o sofrimento um estado normal.

Os mais novos não aceitam da mesma maneira e há uns espíritos mais livres que se revoltam.

Mas de uma forma geral as pessoas conformam-se com o pouco que têm, até porque não conhecem outras possibilidades.

Repórteres de jornais estrangeiros ficam admirados com a brutal clivagem entre elite endinheirada e a população, o mesmo acontece com alguns diplomatas, mas não chegam para alterar o status quo.

E apesar do que se diz de Moçambique em Portugal, não notamos nem as melhorias nem os dinamismos que os media (irresponsavelmente) apregoam. Aqui a maior parte das coisas são mesmo difíceis.

A greve dos médicos atingiu sem piedade os mais fracos.

Cenário durante a greve dos médicos em Maputo @Ussene Mamudo/AIM

Cá em casa foi a Felismina, o marido teve um AVC que lhe apanhou com severidade o lado esquerdo. Tratamento? a Felismina esfregou com uns óleos, e perguntou-me se devia por vick na perna do marido que ele não se tinha de pé. Expliquei o que pude e não mais porque sabia que o hospital tinha fechado as portas, ajudei o que pude - sempre pouco - e ela lá vai, o marido em casa (52 anos) e a ver vamos se conseguirá recuperar o que quer que seja. A família grande e às costas dela.

O dia da tragédia do AVC foi também o dia em que a Felismina levou o dinheiro em dobro para comprar a geleira, com que sonhava há anos. Saiu daqui animada para ir ao Alto Mahé fazer a compra. Durante o percurso recebeu o telefonema da vizinha a informar que o marido tinha caído perto da paragem do chapa, e que não conseguia falar. A bem dizer, a vizinha nem sabia quando se tinha dado a queda, alguém tinha dito a alguém, que tinha dito à vizinha.

E a Felismina lá foi meter-se no chapa para acudir ao marido, ainda deitado no chão à espera que ela chegasse.

E o dinheiro da geleira acabou por ir parar às mãos de um médico (?) privado, e o marido da Felismina voltou a falar mas não registou outras melhoras.

A linha entre a pobreza e a miséria é aqui muito ténue e a Felismina bem quer, mas não lhe consegue escapar.

Só mais um pormenor: o vencimento da Felismina é superior ao de um enfermeiro em início de carreira.

E agora?

 

 


07
Jun 13
publicado por devagar, às 13:51link do post | comentar | ver comentários (2) |

Ainda tenho alguma dificuldade - talvez cada vez menos - em lidar com o que, à primeira vista, consideraría falta de consideração.

É uma forma de estar que vai ao arrepio do conceito, como eu o entendo, mas não a generalidade dos Moçambicanos.

E depois há situações paradoxais.

Vou tentar explicar.

É normalíssimo ouvir buzinadelas poderosamente sonoras na cidade. Se vamos no trânsito, e por qualquer razão não arrancamos logo no sinal verde (ou por alguma situação com semelhante importância) levamos com o buzinão, de um automóvel com o que nos parece ser um condutor incapaz de procedimentos de condução menos correctos, mas que passado pouco tempo pára a viatura a despropósito, e incomoda toda a gente e fica impávido.

As carrinhas do transporte escolar buzinam, para chamar as crianças que não estão na paragem, de forma tão sonora que se apanham valentes sustos, sobretudo quando são 6 e qualquer coisa da manhã e ainda se está na fase de acordar.

Os vizinhos ouvem a música que querem e lhes apetece com o voulume no máximo, em qualquer ponto da cidade, mas sobretudo ao fim de semana, sem pensarem poder - eventualmente - incomodar qualquer pessoa.

Photo credit: Marcus Westberg, www.lifeThroughAlens.com 

A empregada (no meu caso a Felismina) que entra de manhã, tendo um de nós aberto a porta para ela entrar (e aqui as portas são duplas, uma de madeira e a outra - a de segurança que à noite leva os cadeados - de ferro, tipo portão alto) fica à espera que façamos o serviço completo e deixa-nos pendurados, porque não abre nem fecha pelo menos o portão. Não é distracção, porque o rapaz que trata dos meus impostos faz o mesmo, a senhoria da nossa antiga casa idem aspas, aliás, essa quando vinha receber a renda ficava, já à saída, que nem uma estátua ao pé das portas à espera, e se nós não abríssemos as duas ainda hoje lá estaríamos todos.

Eu sempre a estranhar o comportamento, mas já confirmei que não é inédito.

Vamos de carro numa artéria movimentada, um peão resolve atravessar, não respeita semáforos, atravessa onde lhe apraz e anda muito devagar, obrigando-nos a travar e abrandar, desconsiderando-se acima de tudo a si próprio, porque ser atropelado nesta terra não é brincadeira, até porque as urgências dos hospitais não primam pelo bom e célere atendimento.

Mas há outro tipo de situações, as paradoxais.

Photo credit: Marcus Westberg, www.lifeThroughAlens.com

Se vamos na rua e dizemos bom dia a um guarda (que é mais ou menos o porteiro e que tem uma vida regalada pois passa o dia sentado numa cadeira na rua à porta do prédio ou vivenda que 'guarda', a falar com os outros guardas das casas vizinhas) ele responde bom dia obrigado (com delicadeza).

Se vamos ao banco (por exemplo) fazer um depósito com alguém que até nunca vimos, podemos ouvir um bom dia como está (em resposta ao nosso bom dia) ao que respondemos bem obrigada e entregamos o cheque para depósito, porque lá está time is money e não estamos ali para grandes conversas, e ouvimos eu também estou bem, e percebemos que metemos água e fomos nós os autores da desconsideração.

Do que eu gosto mesmo é quando estamos ao telefone e não precisamos de pedir para repetirem quando não percebemos, basta dizer desculpe, que vem logo a repetição, o que torna tudo mais simples, rápido e civilizado.

É por situações destas que eu não sei se as outras são desconsiderações, mas penso que não serão. 


11
Mai 13
publicado por devagar, às 09:39link do post | comentar |

Tem vindo a escassear o tempo de que disponho para fazer coisas de que gosto. Há por aqui fases de picos de trabalho - é o caso agora - e é de aproveitar porque não se sabe quando será a próxima,  nem os fins de semana escapam e o Devagar tem-se ressentido.

Como se diz por aqui: sorry (que significa desde o 'desculpe' ao 'temos pena').

A Felismina anda numa enorme excitação. Pediu-nos, toda encolhida e as palavras a saírem-lhe a custo, o subsídio de natal adiantado para fim do mês e juntamente com o ordenado. Essa quantia, explicou-nos, mais o tchiquit, iria servir para comprar uma geleira (= frigorífico) que já não aguenta viver sem ela.

Disse-nos que decidira assim porque prefere sacrificar a sofrer, num emaranhado de conceitos físicos e psicológicos, confusos para mim mas claríssimos para ela. Dissemos-lhe a tudo que sim, inclusive que iríamos ajudar na compra, e entrou por ela uma alegria que chega a ser contagiante.

Isto tudo depois de ela ter pensado coisas muito más, porque tendo tido uma gripe ficou com tosse que persistia em não querer ir embora. Na altura, disse-lhe que lhe ía comprar xarope, mas depois meti-me no escritório a traduzir e esqueci-me. Até ao dia - quente como só em África - em que me chega de manhã com um gorro de lã enfiado na cabeça.

Felismina, o que se passa? é a tosse senhora

mas Felismina o que é que a tosse tem a ver com o gorro na cabeça?

senhora é o que me diz uma vizinha, esta tosse é muito má, pode ser doença muito má

e apurei que a dita vizinha já a tinha mandado tomar gotas de limão com whisky, sendo o gorro de lã a alternativa ao alcance da bolsa magra da Felismina.

Nesse dia mea culpa comprei o xarope, ela começou a tomar e dias depois já não tossia. Foi então que ela se convenceu que não tinha uma doença grave, e vai daí resolveu comprar a geleira.

 

Mas como é senhora dona do seu nariz, vai fazê-lo sem dizer nada nem ao marido - a quem chama Sr. Paulo - nem à família. Há-de chegar a casa ao mesmo tempo que a geleira, para fazer surpresa, e tudo isso será motivo para festa, da grande e da boa.

Acresce explicar que o tchiquit é um esquema do bairro, entre um grupo de amigas (neste caso, porque há imensas variantes) em que todos os meses do ordenado se faz um bolo - cada uma dá uma parte - e esse bolo rotativamente é gasto por uma delas, naquilo que lhe faz mais falta.

A Felismina não costumava participar em nenhum tchiquit mas para comprar a geleira - e desde que não tem tosse - aventurou-se.

Além do mais, a filha que ela tem com problemas de saúde recebeu um certificado de incapacidade, que lhe dá direito mensalmente a boa quantidade de arroz, farinha de trigo e de milho, feijão, óleo, açúcar e amendoim, que a Felismina vai buscar de manhã muito cedo para não ficar horas na fila.

Nesse dia entra mais tarde cá em casa e trás à cabeça cerca de 25 quilos, orgulhosos e satisfeitos, que a fazem esperar à tarde por um chapa que a deixe entrar com aquele atavio, porque o chapa está ali para fazer dinheiro com muitas pessoas e o carrego da Felismina só poderá entrar quando o número de passageiros começar a diminuir.

Há anos que queria uma geleira e é agora que a vai ter.

Tudo portanto devagar.


12
Abr 13
publicado por devagar, às 06:12link do post | comentar |

Aqui ninguém se refere ao tempo como estando bom, mau, frio ou quente, o termo usado e vulgarizado é a temperatura. Que já vai pregando partidas e começa a descer. Mínimas abaixo de 20ºC já deixam muita gente com frio e fazem aparecer as golas altas pelas ruas, mesmo no pico da máxima diária de 28ºC.

Hábitos são isso mesmo.

Eu dou comigo a gostar deste tempo, a dispensar o ar condicionado non-stop e percebo que tem a ver com os muitos anos vividos na costa atlântica europeia.

Estive nos últimos dias numa formação relacionada com o tema de recursos humanos, de que gostei particularmente e me faz dizer que aqui o alto potencial humano existe e atinge também níveis de excelência, e afirmo-o porque conheço bem o standard do bom trabalho na Europa.

E o mundo do saber tem poucas divisões, na formação que frequentei trabalhou-se o que se repete também incessantemente no Conselho da Europa ou na London School of Economics, a capacidade de adaptação das pessoas a diferentes contextos faz toda a diferença e permite sair com facilidade da zona de conforto e entrar no mundo do where things happen. Ontem até nas notícias de Portugal se referia que o critério de recrutamento de engenheiros portugueses para trabalhar fora de Portugal designadamente na Noruega, dependia para além da licenciatura da capacidade de adaptação.


foto de Marcus Westberg, www.LifeThroughALens.com

Se eu quiser ligar isto à temperatura, tal como os moçambicanos a concebem, direi que esse poderá ser o busílis da questão. O Moçambicano tem horror ao frio mas conheço quem vá/foi procurar formação e certificação noutros países, mesmo no pleno Inverno Europeu. Mas não é qualquer um.

Tenho para mim que este movimento de gentes, o contacto com os outros, o comparar soluções, o enfrentar o dia-a-dia do struggle for life, a capacidade de não julgar pelo prisma dos preconceitos e estereótipos mas de observar e de aprender está na base dessa capacidade de adaptação.

Aqui há uma geração de profissionais extremamente competentes, discretos, low profile e virados para os resultados. Jovens. Todos com experiência profissional fora do país e com assertividade profissional. Gosto disso e do facto de perceber que como existem os que conheço, existirão certamente outros núcleos de excelência.

Quantos? não sei.

Dar o salto do elementar, da escolaridade que é quase e só uma alfabetização, sair do limiar da pobreza é um passo gigantesco que se dá colectivamente: é política do Estado e objectivo do milénio das Nações Unidas. Muitas organizações no terreno só se podem dedicar ao imediato, que por si só é um mundo: vacinação, controlo da malária, diarreia e pneumonia, que matam muitos e todos os dias porque isso é indiscutivelmente essencial (trabalho sério financiado em muitos países da África subsaariana pela Fundação Bill & Melinda Gates).

Mas há uma altura em que mesmo alguns que têm uma vida de privilégio, acomodada e fácil, sentem a sede de saber - que é um vírus que neste mundo global só ataca alguns - e a vontade de sair da zona de conforto, que aqui é muito sufocante, e rasgar os seus horizontes.

Uma minoria. 

Devagar, esse grupo vai-se fortalecendo, mesmo que o pior seja a temperatura. 


31
Mar 13
publicado por devagar, às 11:49link do post | comentar | ver comentários (2) |

Estive 3 semanas na Europa.

Durante as quais, e inexplicavelmente segundo os meus vizinhos (este é um prédio família, tranquilo onde todos se conhecem de há muito), assaltaram o nosso apartamento, em pleno Sábado à tarde, quando por pouco tempo não esteve ninguém em casa, e roubaram despudoradamente pedaços da nossa vida, menos da minha porque levei comigo a parte mais importante da minha informática, mas tudo o que era computador, televisão, óculos escuros graduados, flash pens, leitor de DVD, telemóveis, ténis, tudo foi levado, tudo foi mexido, gavetas esventradas. Pensamos nós por amadores - por aquilo que fizeram e por aquilo que não souberam fazer - gente miserável, sem emprego, com muita vontade de ter e sem a noção mínima do que é ser, com muitas horas de frustração em cima e muitos anúncios vistos na televisão a mostrarem que o ter afinal é que dá felicidade.


Em teoria, percebemos e compreendemos tudo, na prática é muito mais difícil de aceitar.

A polícia foi um filme, com enormes esperas para nada, apenas a sensação de total inoperância e descaso e de que estamos reconhecida e conscientemente sozinhos e temos que tomar as nossas precauções.

E, no fundo de nós mesmos, sentimos que tudo mudou sem retorno.

Correram por aqui versões várias, todas possíveis, mas que nada adiantam porque pouco se faz no sentido de apanhar quem quer que fosse, ou de alterar o status quo, no fundo quem é de cá vai pensando que podemos suportar isto tudo. 

Voltei para uma casa - um espaço com que até agora nos identificámos e que considerámos um porto seguro - sem perceber bem como vou conseguir habitá-lo.


Para já fechadíssima e sem vontade de sair de casa.

Ao falarmos com outras pessoas tomamos conhecimento que já aconteceu a muitos, e temos que nos confrontar com a realidade não mediática mas verdadeiramente real do que de facto é esta cidade. 

Devagar, vamos tentar ultrapassar.  



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