se vai ao longe? ou nunca se chega? Em terras do Índico, vamos abrandar...
02
Set 11
publicado por devagar, às 10:55link do post | comentar |

É sobejamente conhecida a existência de uma África do desenrascanço.

Dela fazem parte os chapas (=transportes públicos, com preço tabelado) que todos suportam mal mas a que a maioria se sujeita no dia a dia por falta de alternativa.

O chapa é um minibus, que em teoria levaria 9 pessoas mas que chega a meter 20 lá dentro, quantos um dia - estupefacta - contei a saírem numa paragem da 24 de Julho. Os bancos de origem são retirados e tudo se rearruma para poder ser lucrativo. Questiono-me se será, mas o lucro africano é muitas vezes um conceito diferente do lucro capitalista. Depende do ponto de partida de cada um e aqui é poderoso aliado do desenrascanço: desde que no fim do dia não tenha havido prejuízo é porque houve lucro. As horas em pé, o pó, a poluição, o mal estar, o corpo que dói, o cansaço...quem tem como actividade a economia informal não contabiliza nem valoriza nada disso. Esta é, também,  a razão da falta de produtividade/competitividade da mão-de-obra moçambicana: é barata mas procuz muito pouco. É claro que este pouco depende dos olhos do analista.

O negócio do chapa faz-se assim: o dono do chapa entrega diariamente a viatura, sem combustível, a um operador que terá que lhe pagar qualquer coisa como 1000 meticais. Os custos e lucros diários vão por conta do operador. Um bilhete de chapa custa 7,5 meticais. Então vale tudo, até encurtar viagens e não passar por determinadas paragens, consideradas pouco lucrativas. Toda a ideia de serviço arredia à operação, cada um por si, para chegar ao fim do dia com lucro.

Numa semana que passei em Moscovo, a viver como os moscovitas e a apanhar os chapas locais - circulam non-stop nos bairros residenciais, param com uma aceno de mão e levam os passageiros para a estação de metro - considerei o conceito muito funcional, seguro e confortável.

Adoptado em Maputo depois da independência, altura em que a inspiração era soviética, foi-se desenrascando até se chegar à situação caótica em que uma pessoa gorda para entrar tem que pagar 2 lugares e só se pode transportar dentro do chapa aquilo que cabe no colo de cada um.

Os chapas vão acabar dentro da cidade, segundo informação oficial do Conselho Executivo (=Câmara Municipal) e serão substituídos por machibombos (=autocarros) a sério. Os chapas continuarão só fora do centro, nos bairros periféricos, no salve-se quem puder.

Enfim, veremos.

Tudo anda devagar.

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Este post fez-me lembrar a minha estadia na Etiópia no ano passado. Tirei uma fotografia a um autocarro a transbordar de gente, suponho que um pouco nos mesmos moldes que a Tia descreve. De facto a sua descrição está na "mouche": é que os conceitos "desconforto", "longe", "calor" associados a este transporte são tão relativizados nestes países... É de admirar.
Inês Black a 2 de Setembro de 2011 às 18:33

A capacidade de viver no desconforto total é das coisas que mais admiro em África - conceito que passa totalmente ao lado do comum dos mortais aqui.
Para mim é fascinante e faz-me compreender muitas coisas.
devagar a 2 de Setembro de 2011 às 19:08

quando volto a Moçambique desloco-me, na cidade de Maputo, a pé ou de táxi. olho sempre tentada para os chapas, fascinada mais pela experiência, do que pela utilidade do meio. nunca tive coragem de usar esse meio de transporte coletivo. um dia será.
Juana a 3 de Setembro de 2011 às 11:51

Desloco-me muito a pé e de carro e também estou tentada a experimentar o chapa, mas já me disseram que se o fizer não me vão deixar entrar lá para trás e reservam-me um dos lugares ao lado do condutor (são 2 lugares à frente ao lado do condutor...)
Tudo devagar!
devagar a 3 de Setembro de 2011 às 13:19

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