se vai ao longe? ou nunca se chega? Em terras do Índico, vamos abrandar...
04
Abr 12
publicado por devagar, às 11:14link do post | comentar |

Chegou um visitante - estrangeiro, classe média alta - a uma cidade de Moçambique e viu um pequeno hotel. Entrou e quis saber do tipo de quartos, do serviço de restaurante, como seria o mata bicho (=pequeno almoço) e propôs pré-reservar um quarto deixando 2.000 meticais de sinal, se encontrasse outro que lhe agradasse mais voltaria a levantar o dinheiro, caso contrário esse montante já ficaria como parte do pagamento.

O dono do hotel, homem da terra, concordou e o proponente partiu à descoberta de alternativas.

O dono do hotel, no entretanto, pegou nos 2.000 meticais e foi ao talho. Conversou com o proprietário e entregou-lhe os 2.000 meticais por conta do que lhe devia já há bastante tempo. O talhante agradeceu e pegou nos mesmos 2.000 meticais e foi a um dos seus fornecedores e entregou-lhe os 2.000 meticais para abater na sua conta corrente. O fornecedor ficou grato e pegou nos mesmos 2.000 meticais e foi à oficina onde arranjara o seu carro. Encontrou o dono e deu-lhe a referida quantia, que constituiu mais uma prestação da conta que com esforço vinha pagando. O mecânico agradecido levou os mesmos 2.000 meticais que entregou ao camionista que costumava trazer-lhe peças para a oficina, numa actividade paralela à das entregas oficiais de uma grande multinacional. O camionista, também grato, pegou nos 2.000 meticais e foi pô-los na mão da amiga (=trabalhadora do sexo) que o recebia e lhe dava conforto humano a troco de somas que chegavam certas, se bem que sempre atrasadas. Esta, por sua vez, pegou nos mesmos 2.000 meticais e foi entregá-los ao dono do pequeno hotel, que lhe facilitava a actividade não a pressionando com os pagamentos.

Passados alguns minutos, o visitante entrou na recepção do pequeno hotel e - uma vez que tinha encontrado alternativa mais do seu agrado - pediu os seus 2.000 meticais de volta, que havia deixado como sinal.

Todos ficaram felizes porque todos receberam dinheiro.

Nada aconteceu: tudo ficou igual ao que já era.

Como a economia africana: o dinheiro circula - devagar - e na essência, nada muda.


muito bom, fantástico mesmo.
Juana a 5 de Abril de 2012 às 13:10

lindo! :)
Olivia Santos a 5 de Abril de 2012 às 23:13

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