se vai ao longe? ou nunca se chega? Em terras do Índico, vamos abrandar...
19
Dez 10
publicado por devagar, às 17:09link do post | comentar |

Tenho vivido neste gelado Norte; a viajar com o credo na boca por causa dos persistentes nevões e dos aeroportos bloqueados - a natureza mais forte que a tecnologia; a observar com atenção como, neste hemisfério rico, se pensa na crise em termos de menos euros para gastar, a subsistência - claro está - sempre garantida, em causa sobretudo o supérfluo. Ainda assim e sem dúvida crise, mas talvez de outras coisas.

Sobre isso pouco a dizer, até porque para a sobrevivência de todos, o grupo que se dedica com afinco, criatividade e persistência às compras faz maningue falta. Mas confesso que me incomoda esta coisa do Natal, visto em termos da quantidade, do ter, do comprar.

E dou por mim, a escassos dias do Natal sem uma compra feita, um menu pensado, e sem qualquer vontade de entrar nesse esquema e - e isto é admirável - a pensar também que a coisa me interessa pouco. Talvez influências de um distante, saudoso e lento Índico.

Gosto.

Também, pelos debates que vejo na televisão dos promitentes presidentes desta república à beira Atlântico, reparo que a pobreza está em alta no teor dos argumentos, referências à importância de ter visto putos a correr atrás de galinhas para roubar o sustento que as ditas levavam no bico, a putos a ir descalços e com frio para a escola, esgrimem-se argumentos que me parecem mais pertencerem a debates da televisão de países em desenvolvimento, que da mimada UE. As questões político-constitucionais omissas: dará muito trabalho estudá-las?

Tenho saboreado bastante as teias de afectos que por cá deixei.

Gosto muito.


03
Dez 10
publicado por devagar, às 09:40link do post | comentar | ver comentários (1) |

Este blog mudou - por algum tempo - de hemisfério.

Deixei o Índico e vim - nem posso dizer que de férias - para a gelada Europa do Atlântico.

E já senti fortemente a nova geografia, quando recentemente estive parada duas horas e tal dentro de um avião no aeroporto da Portela à espera que a neve permitisse o take off para Frankfurt, onde, como quase todos os passageiros daquele avião, se perdesse a ligação seguinte via a minha vida muito alterada.

Houve quem não conseguisse esperar. Muito stress. Muita reclamação, muita falta de ar, muitos nervos em excesso, muitos telefonemas, muitos emails, muito, muito, muito.

Dentro de um avião cheio de gente, senti (o que me surpreendeu) como o Índico me faz falta. Tudo mais sereno, mais tranquilo, com mais qualidade porque mais lento; tudo slowing down, tudo - enfim - mais d-e-v-a-g-a-r. Voltei a sentir o peso da atlanticidade quando tive que andar à chuva, com um teimoso e persistente vento frio a entrar-me pela gola e a incomodar-me, e dei por mim a comparar esta chuva com a que me molha no Maputo - e gostei mais da que vem do Índico.

 

 

Saudades das pessoas daqui - imensas. E sei que não vão passar. E de nada vale pensar que, estando muito tempo junto de quem se sente saudade, esta irá - consequentemente - diminuir. Exactamente o contrário: aumenta. É um tempo que se sabe finito e efémero.

Estar longe abre esta ferida que não cicatriza nunca, e para a qual remédio não existe.

Rumar ao Índico irá, novamente, avivar a maldição de quem emigra, de quem se separa: a saudade permanente, a sensação de viver a vida por metade, de estar dividida.

E nada, absolutamente nada, fará mudar este sentimento. Sendo que no Índico a compensação vem do facto de se viver noutra velocidade: mais humanamente devagar.

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