se vai ao longe? ou nunca se chega? Em terras do Índico, vamos abrandar...
23
Fev 11
publicado por devagar, às 12:22link do post | comentar |

Aqui o dia-a-dia decorre com  regularidade, um ou outro sobressalto a quebrar a rotina. Ou porque não nos podemos abastecer disto ou daquilo, que inclui a água, grande transtorno com este calor acima dos 30º, ou porque alguém próximo de nós está com febre, dores no corpo e na cabeça e receamos sempre que possa ser malária.

De resto...tudo devagar.

Morre-se muito por causa da malária, e do contexto de pobreza em que ela se propaga. Responsável por cerca de 40% de todas as consultas externas, 60% dos internamentos nas enfermarias de pediatria, e gravidezes difíceis nas mulheres infectadas, porque a malária provoca a anemia. As perdas económicas atribuídas à malária são de monta, bem como elevado o absentismo escolar e fraca a produtividade agrícola, subsistência principal das populações rurais.

Aqui em casa ameçou-nos esta semana.

A Felismina entrou ao serviço, com a pontualidade britânica que a caracteriza, ainda não eram 7h00, a queixar-se de dores, arrepios de frio, enjoos, falta de forças. Que deveria ser malária...que nunca a tinha atacado mas cuja cara conhecia, por ser mulher madura, de muitos auxílios a vizinhas aflitas, e porque há muito mosquito de noite, e o 'vapor do baygon' não dura nada, e rede não tinha. O calor nas casas dos bairros, onde gente que trabalha dorme das 20h30 às 4h00, é infernal. Tudo se abre para refrescar, e os mosquitos da malária fazem razias. É o mesmo que dormir ao relento, opção de muitos.

 

Como com isto não se brinca, fomos as duas para a Clínica 222 (privada), na 24 de Julho, e por lá ficámos praticamente o dia inteiro, entretidas com análises não conclusivas, consultas, mais análises, num sorvedouro de dinheiro, que me disseram depois os experientes que até é dos sítios mais baratos. No hospital seria para o dia todo, sem garantia de se ser atendido. Um dos maiores perigos da malária é ficar 'escondida', porque as pessoas desistem de repetir a análise, e chegam ao hospital em fase irreversível.

A tudo a Felismina se sujeitou, mais agastada que eu, com uma pose dramática de sofrimento, que não lhe conhecia, pois nunca se queixa, e me surpreendeu, porque é uma mulher valente. Já tarde fomos à farmácia deixando-a depois na enorme bicha para apanhar o chapa, e ir para casa - para onde já tinha ligado e dito à filha 'para avisar o papá' que ía mais tarde porque estava no hospital. Isto dito a seco, sem explicações sobre o porquê, numa economia de palavras que lhe é característica, mas que a filha estranhou. Antes de desligar ouvi-lhe a voz: 'fala a mamã'.

Eu nada disse, não valia a pena.

Ficou um dia em casa, por insistência nossa, e hoje entrou pontual. Menos dramática, mais parecida com o que eu conheço dela. Disse-me que ao voltar para casa, na paragem do chapa, tinha toda a família à espera: marido, mãe, tia, seis filhos.

E foi logo 'com o patrão' (gosta de ir no carro com ele, dá-lhe estatuto perante os guardas/porteiros do prédio) à clínica repetir a análise. Uma hora depois confirmava-se o negativo.

Alegria geral e, de imediato, fim do drama. O facies da Felismina descansou, sorrisos prestativos, o trabalho a fazer-se como de costume.

E mais um dia rotineiro a passar.

Devagar.

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15
Fev 11
publicado por devagar, às 10:42link do post | comentar |

Há coisas nesta cidade, que não deve haver em muitos mais sítios. Vou falar na qualidade de vida, porque compensa quase tudo. Aqui temos empregadas (ou empregados). A eficácia dos mesmos é francamente acima de tudo o que conheci na Europa.

Na minha casa trabalha a Felismina, a quem já anteriormente me referi como a fadinha boa que trata do que é meu.

Mas tratar não define tudo o que ela faz.

Vou por partes: é pontual, chega antes das 7 da manhã - a vida na minha casa começa com um despertador que toca sem constrangimentos pelas 5,30 - e se for necessário chegar mais cedo, diz que sim com um sorriso. Entra bem disposta, limpa e lava como nunca vi ninguém fazer no hemisfério norte, ou seja, o branco fica mesmo branco, as nódoas que teimosamente não querem sair da roupa não a derrotam nem a fazem desistir; os cantos pouco acessíveis e onde o cotão gosta de instalar são invadidos por ela com determinação, os armários limpos por dentro com regularidade, as varandas diariamente lavadas, a roupa sempre em dia e arrumada, a respeitar o modus faciendi dos patrões, casas de banho e cozinha sempre impecáveis .

Serve o almoço à mesa, com a pontualidade e as dores do patrão que chega esfomeado às 12,30, e cozinha como nos tempos da minha infância, quando não se queimavam etapas, e quando se fazia molho tártaro para acompanhar os filetes de peixe fresco, temperados a preceito e não tirados de um pacote congelados, pré fritos e temperados na fábrica, o mesmo se passa com o esparregado, feito de verdadeira nabiça ou espinafre, escolhido, lavado, cozido e transformado num acompanhamento que facilmente tornará qualquer um vegetariano. A salada é diariamente variada e nunca vi ninguém picar cebola tão miúda nem cortar rodelas tão finas de tomate e pepino, este último a bater em qualidade o que se vende de Norte a Sul de Portugal, ilhas inclusive.

Do pão da véspera faz tostas no forno, finíssimas e estaladiças - o que me impedirá para sempre de voltar a comer as tostas grossas europeias - que nós comemos num lanche tardio que é o nosso jantar também.

Nem falo do excelente caril de camarão que faz, porque esse toda a moçambicana que cozinha o sabe fazer, com coco ralado na altura num ralador que comprou e trouxe cá para casa, pedindo desculpa pela despesa que me obrigou a fazer, de 150 meticais/3 euros e que nem sei como conseguiu transportar no chapa (parece e tem o tamanho de um banco de engraxador lisboeta) quando eu sei que nos chapas as pessoas gordas têm dificuldade em entrar, porque ocupam demasiado espaço.

Diz-me que tem como sonho ser uma boa empregada, e eu digo-lhe que já é. Diz-me que não, que só será boa empregada quando eu nem tiver que lhe dizer o que é o almoço. Nessa altura, só terei que me sentar à mesa e comer.

Também não falo da forma como tratam os bebés da casa, porque na minha casa já não há crianças.

É ou não é qualidade de vida?

De nada se queixa. Não para de trabalhar.

Mas quando se senta para comer, não o faz a correr, e eu gosto que seja assim.

Nada do que faz é devagar, antes ao ritmo certo.


10
Fev 11
publicado por devagar, às 11:27link do post | comentar |

Venho de fora, da Europa evoluída e moderna. Olho para a cidade como outsider, e gosto de observar, de reparar em pormenores, de compreender comportamentos, de me perder por aí, e se não o faço mais é por estar um calor que me impede de passear como gostaria e a que me vou habituando - devagar.

Esta cidade não está organizada para o visitante. Os táxis são poucos, os museus escassos, a pedincheira imensa, os passeios estragados, a praia suja e arriscada, os chapas pejados a tomarem conta das ruas (cheias de buracos), os carros enormes e sem respeito pelo transeunte, os caixotes do lixo sempre cheios, os bairros pobres de ruelas estreitas e de terra batida a rodear a cidade de betão, muita gente na rua, muito barulho, a comunicação com os locais é muito difícil, o português que falam e o que nós usamos distantes a dificultar o diálogo...

A primeira impressão não levará à empatia, sobretudo se quem chega é pouco viajado: o medo retrai as pessoas. Então faz-se o circuito da Av. Julius Nyerere, da cidade branca, dos bons e caríssimos hotéis de luxo, dos bons restaurantes, um salto ao Bazaruto para os endinheirados, uma visita à cosmopolita Nelspruit e ao famoso Kruger Park e a coisa fica por aí.

Mas Maputo é imensa e multi etnica, e disso tenho uma sadia consciência.

Pergunto-me qual o conceito à volta do qual se organizará esta cidade. Quando aqui cheguei descobri coisas à custa de esforços inglórios, lógicas absolutamente inéditas, como a variação de preços dos mesmos bens, em lojas da mesma rua, na casa do dobro e da metade, da dificuldade de encontrar coisas para nós básicas, mas que se calhar não fazem falta nenhuma (chicaras de café), e coisas caríssimas e de um gosto surpreendente, como o tamanho das mobílias. O resultado é que aqui se aprende o despojamento, que nos obriga a repensarmo-nos e simplificarmo-nos, e nos torna - assim esperamos - melhores.

Claro que cidade tem uma lógica, todos os dias se enche e se despeja de gente que trabalha e luta pela sobrevivência, e o facto de não a compreender não confirma a sua inexistência.

E a cidade também tem restos de um passado, cada vez mais distante.

Abasteço-me de coisas que me fazem falta para as minhas actividades de artesanato na Retrosaria Fakir (o nome já diz tanto...), sita no Alto Mahé, bairro popular e maioritariamente monhé. A loja terá 25 m2, é gerida a pulso firme por homens vestidos de branco da cabeça aos pés e mulheres de negro trajadas, também da cabeça aos pés (a afirmarem-se publicamente maometanos), ajudados por muitos africanos, empregados prestativos que se colam aos fregueses ... onde existe tudo o que se possa imaginar. Tem sempre fila à porta - as pessoas têm que bichar, o que os locais abominam e de que não param de se queixar - mas eu nunca espero nem bicho. Porque não me deixam. Assim que me vêem chegar, afastam-se para eu passar, e mesmo que eu não queira a isso sou obrigada. Dentro da loja também tenho atendimento prioritário e de qualidade.

Restos de uma cidade colonial?

Provavelmente.


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