se vai ao longe? ou nunca se chega? Em terras do Índico, vamos abrandar...
28
Set 11
publicado por devagar, às 16:06link do post | comentar | ver comentários (2) |

Neste continente passam-se coisas que só são do conhecimento de quem por aqui anda.

Os relatos dessas mesmas coisas têm alimentado um imaginário literário, cheio de aventuras românticas e rocambolescas, com heróis fantásticos, nativos estúpidos, exotismos e cenas imaginadas e na prática inviáveis. Caso do Tarzan of the Apes, (1912) com herói de sangue azul, pele branca, criado por macacos e que aprende a ler sozinho, ou mesmo o Tintin au Congo, (1931) cuja visão depreciativa e racista dos nativos o impede hoje em dia de integrar o acervo de muitas bibliotecas infantis.

Estas visões utópicas de África ainda continuam a atrair muitos turistas ocidentais, talvez por serem tão diferentes do life style do betão civilizado das catedrais de consumo e da sociedade formatada por Bruxelas ou Washington. É vê-los chegar aqui vestidos para o tour e a aventura de África, muito caqui e muitos gadjets que não servem para nada. Andar no mato requer treino físico, disciplina e competências específicas, entre as quais o descaso pelo conforto e a flexibilidade mental. Não estou a ver nenhum daqueles turistas a enfrentar o mato sozinho...

Aqui há o desenrascanso generalizado de que já tenho feito relato e há a natureza em estado bruto que não se domestica. E heróis não existem, apenas gente que pretende sobreviver, o que nem sempre é fácil.

Isto a propósito de um trabalhador da Mozaperfis que foi enviado na semana passada de avião para Pemba (ex-Porto Amélia) para instalar janelas e portas de alumínio em construções recentes de algumas agências bancárias. Ora estas não estão no mato, onde não há população a fazer depósitos e a utilizar ATM's. E Pemba, cidade costeira capital de Cabo Delgado e com grande relevância económica, tem aeroporto e comunicação aérea diária para o Maputo, porque o país é de uma dimensão assustadora e não há auto-estradas, às vezes nem estradas... Esse trabalhador deslocava-se com o engenheiro dono da obra de carro ao fim do dia, e a noite no hemisfério Sul cai rápida. Na estrada foram surpreendidos por alguns populares com archotes a mandá-los parar. Aqui por regra não é aconselhável parar na estrada escura, archotes ou não, e eles continuaram. Mais à frente voltaram a ser interrompidos por archotes e os sinais da população para que parassem - é que bem à frente deles passava uma enorme manada de elefantes na estrada. Conseguiram fazer marcha atrás e mudar de direcção, enfrentando o medo que sentiram: há várias notícias de elefantes que matam pessoas...

Na zona há muitas manadas de elefantes a importunar as populações, e há necessidade ou de matar alguns ou de os recolocar, o que nem sempre é fácil e fazendo-se não tem garantias de eficácia. Famílias de elefantes que foram sedadas no Kruger Park, transportadas para a Gorongosa e devolvidas ao mato moçambicano voltaram para o Kruger Park, não se entendendo a bússola que possuem. Mas possuem.

E ninguém quer ter a aventura de andar na estrada e cruzar-se com elefantes em movimento. A população defende-se com o ancestral fogo e avisa quem passa, porque também quer ser avisada quando em situação análoga. Não há por aqui nem 112 nem protecção civil que se chame numa situação destas.

Tudo isto anda devagar.


16
Set 11
publicado por devagar, às 15:26link do post | comentar | ver comentários (1) |

No dia 25 deste mês é feriado em Moçambique, festeja-se o Inicio da Luta Armada da Libertação. Por ser um Domingo, segunda-feira não se trabalha, senão não seria feriado. Neste ano para além dessa comemoração, a IURD, que aqui tem grande expressão, fez dessa data o DIA D, dia da decisão e encheu a cidade de propaganda, criando enorme expectativa.

Não faço muitos comentários por respeito às decisões de cada um em matéria de fé.

No site a IURD podemos ler que "no dia 26 de Setembro, às 9h da Manhã, acontecerá a maior concentração de fé que já houve em Moçambique, contando com 3 estádios em Maputo e outros 10 espalhados por todo o país. O Dia D será o Grande Dia da Decisão para a vida de todos que quiserem participar".

Aqui em casa a Felismina anda envolvidíssima nos preparativos, com reuniões tardias e stress por escassearem os chapas àquelas horas. A D.Felismina, como lhe chamam nestas reuniões, tem a seu cargo a equipa que vende soft drinks e snacks no Estádio do Zimpeto, o maior da cidade. Tudo se combina, incluindo cores e feitios das 'camisetes' com a foto do bispo Macedo (que vem do Brasil para ajudar à decisão) que toda a equipa irá vestir, os preços que vão ser praticados, que têm de ser justos e tutti-quanti, ao mesmo tempo que se lêem passagens da Bíblia que fazem sentido no contexto da preparação. E canta-se, muito e alto, e no dia seguinte repete-se a dose toda a manhã na minha casa -  porque tudo isto é manifestação de enorme alegria.

A Felismina trouxe-me convites para a bancada VIP do estádio do Zimpeto, que ela sabe que eu não gosto de multidões. Eu declinei porque nesse fim de semana vamos a Joanesburgo, e não lhe disse que se estivesse na cidade também não iria, para não ver a tristeza estampada nos olhos dela. Sugeri-lhe que levasse os convites para quem quisesse ir, e ela ficou contente por porque há tanta gente que quer ir para a bancada VIP.

 

 As igrejas aqui - e há tantas igrejas evangélicas pelos bairros mais pobres - têm um muito significativo e importante papel de contenção social, na linha da conquista da felicidade eterna através da aceitação da precariedade desta vida de sacrifício, e uma capacidade de mobilização impressionante. A IURD tem uma máquina de propaganda que vai exactamente ao encontro das necessidades de valorização e capaciatção dos seus fiéis, cf. o video que aqui deixo.

Quem estudou a Reforma da Igreja no século 16, que é o meu caso, não pode deixar de reparar nas imensas semelhanças com os dias de hoje, quando verifica a proximidade destas igrejas da enorme massa de fiéis. Também não pode deixar de comparar a simplicidade do que se vive aqui com a intelectualização excessiva da Igreja de Roma que cria um abismo quase intransponível entre os instruídos e os outros, que são a maioria.

E tanto mais poderia ser dito...

Apenas quero partilhar pensamentos que se enraízam à medida que vou penetrando neste life style de gente que tem tão pouco e que vive o dia-a-dia com uma alegria que eu não encontrei em lado nenhum da Europa, por onde tenho viajado bastante.

Vou pensando devagar.

 

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08
Set 11
publicado por devagar, às 11:45link do post | comentar | ver comentários (2) |

Em Moçambique as mulheres e os homens são muito diferentes. E há muita gente e muitas instituições que tentam todos os dias diminuir a diferença. É muito difícil. Mas todos os dias tem que se tentar que as meninas não deixem de ir à escola, é que à medida que os estudos progridem as meninas vão desistindo, representando 2/3 dos drop-outs do sistema educativo. É brutal. Das meninas que iniciam a primária só 28,8% chegam ao fim. As que desistem da escola vão para casa trabalhar, porque à sua vida futura não fazem falta os estudos. As meninas não são valorizadas como os rapazes. E se é assim em muitos locais, aqui é muito assim - a taxa de analfabetismo entre as mulheres tem vindo a diminuir mas mantém-se alta: em 1997 era de 74,1% da população e em 2004 estava nos 66,2%. Notáveis mas insuficientes avanços.

A prática africana do lovolo (=bride's price) que 'faz parte da identidade individual e colectiva, ligando seres humanos e mortos numa rede de interpretações do mundo e num conjunto de tradições em contínuo processo de transformação'* está bem viva nas sociedades urbanas, incluindo Maputo, e legislação que combatia essa prática foi sendo posta de parte, porque inoperante. O lovolo leva à submissão da mulher ao marido, que a adquiriu, às vezes com grandes sacrifícios dele e da sua família, e o que se adquire é pertença, e dela faz-se o que se quer...

Esta é uma questão muitíssimo complexa, que cruza mal com a emancipação da mulher e cruza bem com a submissão cristã da mulher ao marido, a missionação teve implicações profundas numa mentalidade que já subalternizava o feminino. E as mentalidades mudam muito lentamente.

Devagar.

Ademais, a promiscuidade é comum, sendo usual o homem casado ter mais do que uma namorada - e nada por aqui é platónico. O grave problema de HIV em Moçambique é fruto também deste life style, e da prostituição que teima em cobrar preço sem camisinha (500 Meticais) e com camisinha (250 Meticais) com as mulheres a sujeitarem-se a tudo e a serem traficadas para além fronteiras.

Tudo isto a propósito da recente publicidade à cerveja laurentina, cujos outdoors levantaram ondas de protesto numa sociedade pós colonial onde as questões de racismo continuam a pesar. A pobreza cultural da imagem e do slogan e os protestos que gerou em vários sectores da sociedade, levaram as Cervejas de Moçambique a suspender a campanha.

Na época da responsabilidade social das empresas, e da primazia da imagem, ficava-lhes mal actuar ao nível baixo e promíscuo de uma sociedade que tenta inverter o status quo tão duro para a mulher. A pronta suspensão da campanha demonstra que quem todos os dias tenta remar contra a maré, acaba por atingir os resultados.

Ainda bem que há boas notícias.

 

 

*Estudos sérios da antropóloga Brigitte Bagnol sobre o assunto: Lovolo e espíritos no sul de Moçambique. Anál. Social, abr. 2008, no.187, p.251-272. ISSN 0003-2573.

Disponível na net em http://www.scielo.oces.mctes.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0003-25732008000200003&lng=pt&nrm=iso

 

 


02
Set 11
publicado por devagar, às 10:55link do post | comentar | ver comentários (4) |

É sobejamente conhecida a existência de uma África do desenrascanço.

Dela fazem parte os chapas (=transportes públicos, com preço tabelado) que todos suportam mal mas a que a maioria se sujeita no dia a dia por falta de alternativa.

O chapa é um minibus, que em teoria levaria 9 pessoas mas que chega a meter 20 lá dentro, quantos um dia - estupefacta - contei a saírem numa paragem da 24 de Julho. Os bancos de origem são retirados e tudo se rearruma para poder ser lucrativo. Questiono-me se será, mas o lucro africano é muitas vezes um conceito diferente do lucro capitalista. Depende do ponto de partida de cada um e aqui é poderoso aliado do desenrascanço: desde que no fim do dia não tenha havido prejuízo é porque houve lucro. As horas em pé, o pó, a poluição, o mal estar, o corpo que dói, o cansaço...quem tem como actividade a economia informal não contabiliza nem valoriza nada disso. Esta é, também,  a razão da falta de produtividade/competitividade da mão-de-obra moçambicana: é barata mas procuz muito pouco. É claro que este pouco depende dos olhos do analista.

O negócio do chapa faz-se assim: o dono do chapa entrega diariamente a viatura, sem combustível, a um operador que terá que lhe pagar qualquer coisa como 1000 meticais. Os custos e lucros diários vão por conta do operador. Um bilhete de chapa custa 7,5 meticais. Então vale tudo, até encurtar viagens e não passar por determinadas paragens, consideradas pouco lucrativas. Toda a ideia de serviço arredia à operação, cada um por si, para chegar ao fim do dia com lucro.

Numa semana que passei em Moscovo, a viver como os moscovitas e a apanhar os chapas locais - circulam non-stop nos bairros residenciais, param com uma aceno de mão e levam os passageiros para a estação de metro - considerei o conceito muito funcional, seguro e confortável.

Adoptado em Maputo depois da independência, altura em que a inspiração era soviética, foi-se desenrascando até se chegar à situação caótica em que uma pessoa gorda para entrar tem que pagar 2 lugares e só se pode transportar dentro do chapa aquilo que cabe no colo de cada um.

Os chapas vão acabar dentro da cidade, segundo informação oficial do Conselho Executivo (=Câmara Municipal) e serão substituídos por machibombos (=autocarros) a sério. Os chapas continuarão só fora do centro, nos bairros periféricos, no salve-se quem puder.

Enfim, veremos.

Tudo anda devagar.

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