se vai ao longe? ou nunca se chega? Em terras do Índico, vamos abrandar...
27
Out 11
publicado por devagar, às 23:26link do post | comentar |

Cheguei aqui há duas semanas, vinda de África.
Tenho viajado imenso, estive em Kiev e em Tallin e para a semana vou a Moscovo. É bom, permite-me relativizar a minha vida no Maputo, o bom e o menos bom.

Chego à conclusão de que posso viver em muitos sítios, desde que o meu quotidiano seja partilhado com quem quero. Saber que sou capaz de me adaptar convence-me que a minha cabeça é deste tempo e as reflexões que faço partilháveis aqui.

O que vejo faz-me pensar que este mundo se julga primeiro, mas de facto não o é. O mundo deste hemisfério está indignado, refém de bancos falidos, gestores corruptos e políticos deslumbrados (qualificativos habituais dos africanos) com protestos a subir de tom, taxas de desemprego incontroláveis, cortes nos subsídios, orçamentos vorazes, em busca de soluções que perpetuem o status quo, em vez de consertarem.

Valores? solidariedades? - nada. O mundo global está em difícil construção e só se pode andar para a frente, embora ninguém saiba em que direcção.

Talvez valesse a pena sair da europeia e ocidental zona de conforto  e de certezas e descobrir outros modelos e outras formas de pensar, que as há de vulto.

E descobrir o Ubuntu, que é africano mas que faz uma danada falta neste hemisfério doente, e que diz que uma pessoa se torna humana através das outras pessoas: eu sou o que eu sou, porque nós somos o que somos.

Por aqui o nós está pesado e em risco de se desumanizar.

Respirar e reflectir - devagar.

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12
Out 11
publicado por devagar, às 22:02link do post | comentar | ver comentários (2) |

Vou passar 3 meses longe do Maputo, cidade que tenho aprendido a amar apesar dos seus anacronismos do seu look decadente, dos vendedores que parecem melgas à nossa volta e da mania que a cidade tem de que não precisa de aprender nada.

Tudo vou pondo para trás das costas, e todos os dias vou apreciando mais o doce ritmo do Índico, à medida que vou aprendendo a cidade, que alberga enorme população negra em bairros que a cercam e um punhado de brancos na zona alta e velha e decadente - mas cheia de charme. Aqui há Tugas recém-chegados, à procura de um modo de vida fácil (erro fatal) outros da velha cepa, castigados pela vivência nos tempos difíceis e sempre prontos a criticar e a apontar o dedo a tudo o que está mal. Já desisti de os contestar e decidi que não me vão impedir de gostar desta cidade, influenciada por este lento fare niente africano

E geram-se algumas situações engraçadas.

Optei por viajar na LAM (Linhas Aéreas de Moçambique) assim que os voos para Portugal reabriram no inicio do ano. É mais barata que a TAP (que estava a praticar preços exorbitantes e a precisar de uma concorrência para se tornar consumer friendly) e os aviões que fazem estes voos são fretados a companhia credível. Muitos dos Tugas que tudo criticam me tentaram dissuadir, falaram com palavras gordas e conhecedoras em segurança, vozes levantadas com muitos decibeis e muitas certezas...para depois os ver apanhar o mesmíssimo avião da LAM, que por milagre se tornou seguro.

Apesar de tudo há coisas que ainda me incomodam e que eu tento desvalorizar - mas é difícil.

Iria hoje para Lisboa às 23,30 para aterrar na Portela às civilizadissimas 9,30 da manhã. Durante a semana telefonaram a dizer que afinal só poderíamos partir às 02,30 da madrugada, o que me faria aterrar às 12,30...e hoje ao fim do dia mais uma vez avisaram que o avião só saíria às 04,00 e o check-in abria às 02,00. Ou seja, se tudo correr bem estarei em Lisboa por volta das 14 horas. Com uma noite mal dormida, que me custa horrores.

E estou em casa a fazer horas para ir para o aeroporto.

Tudo continua devagar.


10
Out 11
publicado por devagar, às 14:45link do post | comentar |

No dicionário a palavra moçambicana banja quer dizer reunião ou assembleia. Entrou no dia-a-dia e significa uma reunião, com alguma formalidade, em que o objectivo é divulgar informações, chamar a atenção, repreender, ou mesmo fazer a cabeça de alguém - caso dos comícios da Frelimo.

Há banja quando se passa alguma coisa. Marido e mulher estão a conversar porque as coisas não andam bem - é banja; pais estão chateados com os fracos resultados académicos dos filhos - e vai haver banja; patrão está descontente com empregados - banja no final do expediente.

É um conceito maior do que as muitas reuniões que nele cabem por se relacionar com um life-style antigo com várias finalidades em que as pessoas se sentam e ouvem alguém que fala. Através das banjas as comunidades das terras longínquas eram informadas das novidades, desde as leis aos impostos, guerras, desgraças e abundâncias... quem falava utilizava muitas vezes um tradutor, porque muitos eram (e são) os dialectos. Quando o Presidente da República se desloca às regiões mais afastadas, usa o português e ao seu lado tem um tradutor, que tudo repete no dialecto da terra. Fala, gesticula e faz mímicas. Já vi Gebuza fazê-lo em reportagem da televisão, e pensei que a imagem tem um impacto imediato.

Coisas que passam ao lado do visitante das férias nas maravilhosas praias.

E isto relacionado com dois episódios.

1º Por nos terem roubado do jipe, pela enésima vez, o macaco. Como se pensou que teria sido na fábrica, houve banja ao fim do dia. Resultados nulos, mas uma descarga de stress antes do regresso a casa.

2º Por um amigo, a propósito, nos contar que também fizera banja aos empregados, com criticas e soluções de prémios e objectivos de produtividade - coisas muito à frente e modernas. No dia seguinte perguntou a um dos homens de confiança qual fora a reacção dos empregados à banja. Foi-lhe respondido que nula. Indagados alguns empregados sobre o que pensavam da banja, a resposta foi sempre a mesma: ele só falou.

A minha sogra, nascida e criada na Beira, conta com graça, como viu tradutores na época colonial ante-bellum que diziam uma só frase para traduzir vinte minutos de oratória da administração branca e lusa.

E de banja ficamos entendidos: quando é só conversa nem vale a pena traduzir, idem aspas quando não se quer tomar conhecimento.

Formas de estar devagar.

 

 

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