se vai ao longe? ou nunca se chega? Em terras do Índico, vamos abrandar...
26
Nov 11
publicado por devagar, às 19:08link do post | comentar | ver comentários (2) |

É difícil esperar pela nossa vez numa repartição ou num consultório. Ninguém gosta. Em Portugal então gosta-se muito pouco.

Verifiquei isso quando esperei pacientemente a minha vez para exames de rotina num consultório de grande movimento em Lisboa. Enquanto estava na fila onde se confirmava a presença e se entregava ou as credenciais ou o cartão da seguradora, as mulheres (eram exames femininos) sopravam muito, mexiam as pernas, atiravam a cabeça para trás num gesto de quase desafio sabe-se lá a quê, e uma vez atendidas esqueciam educação e boas maneiras e mostravam-se agastadas, fartas, descontentes com o serviço. Entretive-me a contar o tempo que demorava o processo desde a chegada ao atendimento, não chegava a 5 minutos.

Lembrei-me das grandes filas que se fazem um pouco por toda a África rural, incluindo Moçambique, quando as mulheres vão à equivalente consulta, que não inclui nenhum dos exames sofisticados, ou levam os filhos às vacinas e à balança. Demoram horas, porque se deslocam a pé até ao local, têm que levar água e comida, porque nem têm dinheiro nem há onde comprar, e depois ficam ali a esperar a sua vez, imperturbáveis na sua infinita paciência.

Quis pensar nas razões, comparar, compreender onde e porquê se tornou quase insuportável para a portuguesa esperar 5 minutos. Concluí que se relacionava com a obsessão que aqui existe de controlar o tempo, através da planificação de toda a vida, começando pelo quotidiano, tendo como critério primeiro o tempo que se está disposto a destinar a cada tarefa ou actividade.

Lá, com calma, sabe-se que se vai esperar mas, porque se privilegia a razão da espera, não se valoriza o facto de se ter de esperar. E, sem exames sofisticados e com uma esperança de vida baixíssima (49,78 anos) se a compararmos à que existe aqui (79,26 anos), aguenta-se e aproveita-se para conviver com quem também ali está com objectivos semelhantes e com o desejo de talvez, se Deus assim quiser, ver os filhos crescer com mais saúde.

O mesmo pensamento da Felismina quando me diz: temos a vida que Deus quer, sem revolta nem raiva.

Ainda há dias uma amiga nossa foi pedir uma certidão de nascimento, de que necessitávamos, na Beira. A pessoa a quem se destina a certidão tem 55 anos. Na conservatória, perguntaram o ano do nascimento, após o que disseram que desse ano já não tinham nada ali, porque as pessoas nascidas em 1956 já teriam falecido.

Lógicas e espaços mentais diferentes dos nossos.

Tudo devagar.


20
Nov 11
publicado por devagar, às 15:47link do post | comentar |

Tenho viajado bastante, com desconfortos como acordar às 3 da manhã, apanhar frio e chuva, mas também com disponibilidade para ouvir, para dar atenção ao que se faz e se passa à minha volta, ao que se pensa, se diz, se come, se cheira ... um grande cansaço que tem tido várias compensações, que me ajudam a estar, a ser e a não julgar fora do contexto e do correspondente quadro de valores.


Uma enorme aprendizagem que me renova.

Para além de se gerir as expectativas e frustrações, investe-se na descoberta, deixa-se a nossa zona de conforto, aposta-se na interacção com a diferença. Sem preconceitos e com os sentidos todos alerta.


Venho do Chipre (de que falarei mais tarde) e antes estive no Kosovo. Ainda estou a absorver tanta informação que me entrou pelos olhos, pelos sabores, pelos sons. Esqueci já o desconforto do frio, do cansaço e das esperas.

Sinto-me mais gente.

Faço várias comparações, que me permitem arrumar as ideias e compreender que o desenvolvimento é um processo. Lembro o magnifico livro de David Lowenthal, The past is a foreign country, que analisa o papel dinâmico do conhecimento do passado a dar sentido à nossa vida e  coerência à nossa narrativa. Compreendo como a consciencialização deste processo me tem ajudado a viver no Maputo, a não ter nem a critica fácil nem a conclusão e a certeza prontas após a primeira impressão.

Penso devagar.


E quando percebo o meu percurso, quando me lembro como era o Portugal da minha juventude, e como eu era nesse contexto, das expectativas que tinha e da forma como pensava vir a ser a minha vida, quando me invisto inteira nas viagens que faço, compreendo que o passado é mesmo um país estrangeiro, que vai fazendo sentido à medida que nos construímos...devagar.

 


14
Nov 11
publicado por devagar, às 22:32link do post | comentar | ver comentários (1) |

Inacreditável, estou aqui há um mês e tenho a sensação de estar aqui há muito mais tempo, tudo se enrola, os discursos repetem-se e na realidade acontece pouca coisa, mas paira a ameaça de que tudo vai piorar.

O discurso da austeridade é demagógico e perigoso, os assuntos estão mal analisados, as ameaças de catástrofe eminente exageradas. Incomoda-me o tom do discurso dos dirigentes (nacionais e europeus) e a forma como se colocam numa nuvenzinha asséptica e moralmente superior.

Tenho vivido nos últimos meses num país em desenvolvimento, onde convivem às claras a corrupção e o mercado informal, onde se respira e se vive sem crispações. E a crise, permanente para a maioria, passa ao lado.

Tenho saudades dessa vida à beira do Índico.

Indigno-me quando os mercados depõem governos e rejeitam a clarificação do voto democrático, sobremaneira preocupados com os contágios: trata-se  de uma praga, e tem a carga negativa de outras pragas: os não contagiados só querem distância.

Casa do vizinho a arder...

O nosso Cavaco perante plateia de universitários, defende que o caso da Grécia é isolado e temos todos 'que construir um firewall para isolar a Grécia'.

Acredita quem quer.

Reparo que a compra dos submarinos alemães foi branqueada - os spin doctors consideram todo o povo estúpido e manipulável. Hoje uma amiga dizia-me que os governantes só defendem o diálogo até à primeira greve, depois deixam de fazer operações de charme. Melhor assim, fica mais claro.

Dou por mim a pensar que o poder corrompe sempre, mais os deslumbrados inexperientes.

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