se vai ao longe? ou nunca se chega? Em terras do Índico, vamos abrandar...
25
Abr 12
publicado por devagar, às 13:38link do post | comentar | ver comentários (1) |

Aqui respeitam-se os outros mas não há consideração por ninguém.

Parece paradoxal mas de facto não é.

No Maputo respeita-se a diferença. Ir a um restaurante do tipo classe média popular, como o Piri-Piri, e ver num convívio natural e pacífico gentes das mais variadas origens, credos e cores é vulgaríssimo. O mesmo se dirá da miudagem das escolas primárias e secundárias, que andam misturados em grupos - aqui o mainstream é mesmo multicultural. É quase regra comum a mesma família incluir membros cristãos e não cristãos, e todos se harmonizam e se juntam nas festas religiosas do outro.

É uma lição de vida ver como todos respeitam e são respeitados.

Mas não se consideram, sendo isto bem visível nas estradas ou ruas da cidade na forma como os locais conduzem as suas viaturas (na maioria importados do Japão), sem dar a mínima oportunidade a outros condutores, vistos sempre como o outro, significando o inimigo. Numa atitude competitiva, a ver quem passa primeiro, quem chega primeiro, não se facilitando a vida de ninguém, não se dando passagem e - podendo-se - sem sequer se obedecer à regra básica da prioridade...fico-me por aqui.

Também não se consideram quando, sem qualquer cerimónia, atiram a lata do refresco, as cascas da fruta e outras coisas quejandas pela janela do carro. A cidade está cheia de lixo fora dos contentores.

E há outras situações gritantes.

Os pobres nos bairros são descaradamente roubados por outros pobres também, por falta de emprego e de vontade de trabalhar a par da falta de respeito, consideração e solidariedade. Ninguém pensa que hoje rouba e amanhã é roubado.

Vive-se só o agora.

Se um pobre, habitante numa casa algures no emaranhado dos bairros à volta da cidade, compra um artigo de preço mais avultado, tipo rádio ou televisão, é frequente ser seguido desde a porta da loja até à de casa, que fica marcada para na primeira oportunidade ser assaltada, e roubado o objecto novo que depois se vende para ganhar dinheiro fácil e rápido. 

Vida de pobre é muitíssima difícil.

De criança pobre a vida também não é nada fácil.

Dependendo sobretudo dos cuidados maternos, vive pendurada nas costas da mãe, que se vê obrigada a levá-la para todo o lado, única forma de ir às compras, trabalhar... também com os passeios tão estragados da cidade nem valeria a pena ter um carrinho de bebé, solução de países com mais dinheiro, mas aqui impraticável.

E a criança sujeita-se...

Em toda a parte, e aqui também, qualquer mudança de hábitos acontece muito devagar.


04
Abr 12
publicado por devagar, às 11:14link do post | comentar | ver comentários (2) |

Chegou um visitante - estrangeiro, classe média alta - a uma cidade de Moçambique e viu um pequeno hotel. Entrou e quis saber do tipo de quartos, do serviço de restaurante, como seria o mata bicho (=pequeno almoço) e propôs pré-reservar um quarto deixando 2.000 meticais de sinal, se encontrasse outro que lhe agradasse mais voltaria a levantar o dinheiro, caso contrário esse montante já ficaria como parte do pagamento.

O dono do hotel, homem da terra, concordou e o proponente partiu à descoberta de alternativas.

O dono do hotel, no entretanto, pegou nos 2.000 meticais e foi ao talho. Conversou com o proprietário e entregou-lhe os 2.000 meticais por conta do que lhe devia já há bastante tempo. O talhante agradeceu e pegou nos mesmos 2.000 meticais e foi a um dos seus fornecedores e entregou-lhe os 2.000 meticais para abater na sua conta corrente. O fornecedor ficou grato e pegou nos mesmos 2.000 meticais e foi à oficina onde arranjara o seu carro. Encontrou o dono e deu-lhe a referida quantia, que constituiu mais uma prestação da conta que com esforço vinha pagando. O mecânico agradecido levou os mesmos 2.000 meticais que entregou ao camionista que costumava trazer-lhe peças para a oficina, numa actividade paralela à das entregas oficiais de uma grande multinacional. O camionista, também grato, pegou nos 2.000 meticais e foi pô-los na mão da amiga (=trabalhadora do sexo) que o recebia e lhe dava conforto humano a troco de somas que chegavam certas, se bem que sempre atrasadas. Esta, por sua vez, pegou nos mesmos 2.000 meticais e foi entregá-los ao dono do pequeno hotel, que lhe facilitava a actividade não a pressionando com os pagamentos.

Passados alguns minutos, o visitante entrou na recepção do pequeno hotel e - uma vez que tinha encontrado alternativa mais do seu agrado - pediu os seus 2.000 meticais de volta, que havia deixado como sinal.

Todos ficaram felizes porque todos receberam dinheiro.

Nada aconteceu: tudo ficou igual ao que já era.

Como a economia africana: o dinheiro circula - devagar - e na essência, nada muda.


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