se vai ao longe? ou nunca se chega? Em terras do Índico, vamos abrandar...
27
Ago 12
publicado por devagar, às 09:06link do post | comentar | ver comentários (14) |

Quem vem ao Maputo a férias ou em curta visita 'de negócios' se instala num bom hotel, vai às praias ou - se tiver vindo em trabalho - aos bons restaurantes da cidade, impressiona-se com o inesperado dos carros 4x4 topo da gama que vê nas principais ruas da cidade, olha para o resto como o colorido d'África, vai daqui maravilhado.

E ainda bem, Moçambique precisa de turismo.

Não entendeu grande coisa do país em si, mas lá está, o que percepcionamos, com tudo o que contém das nossas expectativas e daquilo que queremos ver, costumamos confundir com aquilo que é.

Há um outro Moçambique, cujas pinceladas às vezes aqui deixo num ou noutro post, como vou fazer agora, porque neste fim de semana ouvi e li histórias de quem por aqui anda há bastante tempo e tem uma capacidade de análise e um conhecimento que os recém-chegados não têm e que eu até questiono se quererão ter.

A primeira história relaciona-se com o caçador e também escritor Sérgio Veiga (inspirou o mais recente livro de Mia Couto, de quem é amigo), ver detalhes aqui.  Refere-se ele a uma situação no Norte do país, em Cabo Delgado, à volta das povoações de Palma e Macingoa da Praia, onde um casal de leões matou 26 humanos. Contratado para abater os animais, Sérgio Veiga relata como foi lento encontrar os animais e como, naquele contexto, a população acabou por acusar 2 rapazes de ou se transformarem em leões de noite ou de conseguirem manipular os espírito dos leões, e como a polícia prendeu e maltratou os rapazes (porque se identifica com essa forma de pensar) e como só depois de abatido o casal de leões foi possível interceder para a libertação dos rapazes, porque não estavam feridos onde os animais tinham sido atingidos.

 

Para quem gosta destes temas, Sérgio Veiga reuniu uma série de histórias d'África num livro publicado em Portugal em Julho.

 

A segunda história é mais light, amigos recentemente em viagem pela Zambézia profunda viveram uma situação que diz muito: quando falavam (português de Portugal) quem os ouvia pedia para repetirem a frase, ou a palavra, porque há muitos anos que não ouviam falar português assim (destaque para arroz, devido à dificuldade de se pronunciar correctamente os dois erres).

 

Por último, na província de Nampula, fica o artigo que saiu no jornal, e que não se pense que é caso raro, porque de facto e lamentavelmente, é frequente.

O país real, profundo, onde tudo se move a ritmo extremamente lento: devagar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


19
Ago 12
publicado por devagar, às 16:50link do post | comentar | ver comentários (4) |

A rapidez da tecnologia tornou-nos seres muito impacientes.

Esperar é um acto muito difícil, para desespero de quem espera e de quem está ao lado de quem espera.

Explico:

Por vezes o Multibanco não funciona, e geralmente é por causa das linhas. Aqui fica toda a gente à beira de um ataque de nervos.

Na semana passada, depois de ter feito lista de compras, e ido ao supermercado fazer as ditas

... e aqui as compras não são brincadeira, nunca há tudo o que queremos no mesmo sítio, a lista se não está bem feita é uma trabalheira ter que dar as voltas todas outra vez, e os preços têm diferenças loucas, então mesmo havendo os artigos há que diversificar com o olho vivo senão somos depenados - estou farta de dizer aqui que Maputo é uma cidade onde viver custa mesmo muito dinheiro ... 

fui, já com o papel da máquina registadora na mão, ao balcão onde está o malfadado aparelho do multibanco, para pagar a conta de uma série de coisas que já estavam todas em sacos.

... e aqui há a 'saco-mania', tudo se mete em sacos, não se aproveita o espaço dos sacos, muito menos o ambiente, quando há vento (e aqui há muito vento) andam sacos pelos ares numa dança estranha e macabra...sacos esses que estavam já no carrinho para o empregado ir atrás de mim (aqui dizem carinho, porque quando estão dois RR não carregam no som e quando está só um carregam e bem, mas isto são coisas a que nos habituamos e deixamos de estranhar) dizia eu que o empregado iria com o carrinho atrás de mim para meter os sacos na bagageira e guardar a gorjeta - que aqui é uma obrigação (e lá está, esta cidade obriga-nos a ter trocos que é dificílimo, porque ninguém aqui tem a noção de que os trocos são obrigação de quem vende e não de quem compra)...

Então o cartão passou na máquina uma série de vezes, mas a comunicação não acontecia, e atrás de mim crescia a fila de várias senhoras à espera do mesmo, e já assopravam, impacientes com a espera, diziam imensos impropérios ao rapaz que estava atrás do balcão, pondo em causa a sua capacidade de executar a operação.


Havia dois aparelhos Multibanco, um do BIM (=Millenium) e outro do BCI (=CGD). O rapaz tentava ora num ora noutro. Depois mexia nos fios do telefone, que desligava e ligava, gritava em Changane (dialecto local) para os colegas (suponho para que desligassem o telefone do balcão onde está a máquina registadora com o respectivo monhé a controlar o movimento), mexia no aparelho de fax, tudo atrás do balcão num emaranhado de ligações manhosas, e cada vez que desligava fios a máquina do multibanco desligava-se e era necessário recomeçar as tentativas só depois da máquina voltar a parecer 'viva', o que não era imediato, e depois de tudo isto -  nada.

E a mulherada atrás de mim totalmente impaciente reclamava e muito e o rapaz estava a ficar em stress.

Para aliviar o ambiente disse ao rapaz 

- Já reparou que uma máquina fala português e a outra inglês?

Ele nada

Eu insisti: 

- Esta diz 'a ligar' e a outra dizia o mesmo mas em inglês.

Ele olhou para mim e disse, com ar de quem muito sabe:

- Não, aquela lá dizia a conectar (=connecting).

A mulherada aqui refilou e bem, que o puto não sabia nada, que era um ignorante, que o que dizia era uma falta de respeito...

E como a dita máquina nem ligou nem conectou nem coisa nehuma, deixei-os todos a falar uns com os outros, o rapaz, a mulherada, o dono do supermercado, os empregados, o rapaz do carrinho cheio de compras...


E fui recomeçar os mesmos procedimentos noutro lado, no caso no Shoprite, sem saber se encontraria por ali o polícia ladrão (que também é coisa que já deixei de estranhar).

As compras vão-se fazendo ... devagar.

 

 



08
Ago 12
publicado por devagar, às 06:38link do post | comentar | ver comentários (6) |

Não é fácil trabalhar em Moçambique.

Os estrangeiros que vêm sem contrato desesperam. Na cabeça trazem as certezas de quem possui conhecimentos mais especializados e skills/competências que os locais ainda desconhecem, para além de um mundo de sonhos que se foi alimentando pela leitura (não critica) da muita matéria altamente inflacionada das oportunidades que existem em Moçambique.

E oportunidades existem, mas muito especificas e nas mãos das grandes corporações (sobretudo a Vale brasileira e a Rio Tinto australiana) que pagam bem e recrutam estrangeiros nas áreas de engenharia, com anúncios que se respondem no conforto caseiro do hemisfério norte onde se aguarda resposta sem se ter vindo para Maputo à espera do milagre.

Há muita falta de bom senso.

Continua a chegar muita gente e muita já veio e já foi, com o dinheiro gasto e muita desilusão acumulada. Porque ao nível do pequeno e do médio as coisas são muito difíceis, o trabalho pouco ou mesmo nenhum, os vistos de trabalho dificilimos e muito caros, a par do alojamento e da vida do dia a dia, que é muito cara.

As condições contextuais são desfavoráveis porque os locais vêem os tugas recém-chegados como concorrência - que de facto são - e fecham-se. E o mercado ressente-se, os tugas fazem preços malucos para entrar no mercado, esquecem-se que o negócio só se conclui depois de cobrada a factura, e quem não consegue esperar...acaba.

O pilão transformado em calha lava-cabeças portátil do cabeleireiro Chipanga

Entre os moçambicanos há alguns jovens e saudáveis movimentos que vêem o empreendedorismo como a resposta possível para o desemprego, estão a organizar-se, estão de facto a empreender e a obter resultados, conhecem o mercado e sabem ver as oportunidades.

 

Estive na semana passada num seminário sobre empreendedorismo, muito bem organizado, com sala cheia, informação de ponta que não é fácil de reunir pelo inexperiente, alguma teoria integradora dos pensamentos desordenados, exemplos de empreendedores bem sucedidos a contar o seu percurso de luta para chegarem onde hoje estão, com destaque para Taibo Bacar, referência da moda moçambicana, sobejamente conhecida nas passereles de Paris e Milão, para a Green Art, empresa de artesanato sustentável que enche as boas lojas de decoração de Manhattan e Paris com peças únicas de artesãos moçambicanos, sofisticadas e certificadas, garantindo os padrões de qualidade que o mercado de luxo internacional exige.

Havia também pequenos empreendedores que expunham os seus produtos e trocavam ideias sobre como se deveriam estruturar, compreendendo a importância do networking (e o empreendedorismo de Angola estava presente) para se expandirem.

 

O balde que aquece a água do banho macua, um sucesso de vendas

Encontrei um mundo de resistentes, que não se deixam vencer pelas dificuldades do dia a dia e que acreditam que se empreenderem ganham eles e ganha todo o país. E todos começaram com muito pouco, uma ideia, um sonho que foram delimitando e construindo, sabendo que para fazer bem tinham que começar devagar.



02
Ago 12
publicado por devagar, às 06:36link do post | comentar |

 Era uma vez uma porta que, em Moçambique, abria para Moçambique. Junto da porta havia um porteiro. Chegou um indiano moçambicano e pediu para passar. O porteiro escutou vozes dizendo:

- Não abras! Essa gente tem mania que passa à frente!

E a porta não foi aberta. Chegou um mulato moçambicano, querendo entrar.

De novo, se escutaram protestos:

- Não deixa entrar, esses não são a maioria.


Apareceu um moçambicano branco e o porteiro foi assaltado por protestos:

- Não abre! Esses não são originais!

E a porta não se abriu. Apareceu um negro moçambicano solicitando passagem. E logo surgiram protestos:

- Esse aí é do Sul! Estamos cansados dessas preferências...

E o porteiro negou passagem. Apareceu outro moçambicano de raça negra, reclamando passagem:

- Se você deixar passar esse aí, nós vamos-te acusar de tribalismo!

O porteiro voltou a guardar a chave, negando aceder o pedido.

Foi então que surgiu um estrangeiro, mandando em inglês, com a carteira cheia de dinheiro. Comprou a porta, comprou o porteiro e meteu a chave no bolso.

Depois, nunca mais nenhum moçambicano passou por aquela porta que, em tempos, se abria de Moçambique para Moçambique.

 

Mia Couto


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