se vai ao longe? ou nunca se chega? Em terras do Índico, vamos abrandar...
22
Nov 12
publicado por devagar, às 10:06link do post | comentar | ver comentários (5) |

Ando há cerca de mês e meio a conduzir sem carta de condução, mais precisamente desde que a roubaram na África do Sul.

Passaporte,  DIRE (Direito de Residência), documentos do carro, tudo foi fácil, havendo dinheiro é tudo rápido.

O mesmo não sucede com a minha carta de condução.

Trago na carteira uma declaração da polícia sul-africana, em inglês, que informa que a minha carta de condução fazia parte das coisas que me roubaram.

Vale o que vale, mas penso que não valerá assim tanto se me pararem. Porém, percebi também que não tenho o perfil que a polícia procura quando manda parar os condutores, o que faz todos os dias em vários locais da cidade por onde eu ando com à-vontade. Todos se queixam do excesso de zelo da polícia - menos eu.

Até agora passou-se o seguinte:

No Consulado pedi uma segunda via da carta de condução. Fui informada que não podia ser, a lei obrigava-me a ter carta de condução moçambicana, era necessário pedir para Lisboa um print informático da minha carta de condução, depois seria um processo simples, meramente burocrático.

Disseram-me ainda que quando o tal do print chegasse seria avisada.

Demorou 2 semanas e tal, mas lá veio o email e eu lá fui ao Consulado com 10€ cash para o pagar - não aceitam outra forma de pagamento - concomitantemente, o Consulado enviaria por ofício o mesmo documento ao INAV (Instituto Nacional de Viação), para se dar início ao processo.

Correu menos bem, no Consulado não tinham cópia pora mim (!): 'Por lapso não fizemos cópia...mas já pedimos outra, vai chegar depressa, nós assumimos...' (assumem o quê!?!?), esperei mais de 2 gordas semanas.

Nem revelo as coisas horríveis e as palavras feias que me passaram pela cabeça. E não escrevi ao Cônsul a queixar-me do funcionário, apesar de ter vontade.  

De posse do valiosíssimo print, vou ao INAV. Tenho que pagar para obter informações. Julgo que estão a brincar comigo, mas estou enganada.

Um dos requisitos é obter uma certidão de registo criminal.

Todo um filme.

Este país tem agora a impressão digital de todos os meus dedos, separadamente e em conjunto.

O local onde se pede (numa transversal da Av. 24 de Julho, que tem o sugestivo e queirosiano nome de Rua das Flores)  é exíguo, a fila enorme, não tinha esferográfica comigo, e quem me vendeu os impressos recusou-se a emprestar-me a que tinha na mão. E eu a dizer-lhe que iria preencher o impresso ali mesmo (estive quase a desistir) e a perguntar-lhe porquê ... Respondeu-me que todos lhe pediam a caneta, que não duvidava que eu lha devolvesse, porém depois toda a gente iria pedir-lha, e ela sabia que iria ficar sem a dita.

Compreendi, aceitei que era grave abrir o precedente... e até me solidarizei, não é novidade que por aqui se rouba de tudo e descaradamente.

E fui ao supermercado em frente comprar não uma mas 2 esferográficas porque não vendiam à unidade; onde vendiam, à porta do edifício do Registo Criminal (negócio certo e lucrativo) não me podiam vender porque não tinham troco.

E ainda bem que não desisti, a fila andou depressa. No meio da enorme confusão há uma qualquer organização que põe as coisas a andar e na 2ª feira está pronto.

Decidi contratar alguém para me tratar do que falta - que não é pouca coisa;um pouco na base do em Roma sê romano.

Já não penso mal de ninguém e ando mais sossegada, até porque tenho mais papeis carimbados para a eventualidade de ser parada pela polícia.

Hei-de ter a minha carta de condução, devagar.


14
Nov 12
publicado por devagar, às 16:53link do post | comentar | ver comentários (2) |

Em Moçambique os jovens com menos de 35 anos representam cerca de 78% da população total.

Todos os anos deveriam entrar no mercado de trabalho cerca de 300.000 pessoas, porém o país só tem capacidade para criar 70.000 empregos por ano.


Essa é uma das razões porque a economia informal faz parte do panorama económico nacional, e é um facto que grande parte da população dela depende para a sobrevivência.

Pergunto-me sempre qual poderá ser o futuro de tantos jovens.

Também, pelas mesmas razões, uma grande (enorme) parte da população vive de esquemas, entre eles o roubar tudo o que podem e descaradamente.

É normal empregadas domésticas roubarem comida, detergentes, vasilhame, um dente de alho, uma metade de cebola, um tomate, que com shima e amendoim já faz o jantar lá de casa e a patroa não dá por nada...o grave é quando levam para casa mais do que isso. Não se estranha muito quando o detergente da loiça está mais liquido, sabe-se que uma parte já foi num frasquinho para casa da empregada.

Aprende-se a viver com esta realidade.

Cá em casa temos a sorte de ter uma Felismina - que é pilar da igreja, e anda ali direitinha by the book (no caso, a Bíblia da IUR) e é sempre figura grada a abrilhantar todos os funerais, para o que tem capulana especifica  - temos sorte, dizia eu, que ela não rouba essas coisas. E, quando precisa, pede.

Mas já pegou fogo à casa.

Definitivamente, o mundo não é perfeito, e o Maputo pode ser por vezes um lugar estranho, to say the least.

 

Uma das (rarissimas) pricólogas clinicas moçambicanas queixava-se de que os seus compatriotas não estavam interessados nos seus serviços - o que de facto não me admira nada. Conseguiu uma colocação pelo Ministério da Educação, para dar apoio a jovens com deficiência, que estão integrados no ensino, mas só para inglês ver. O trabalho deixa-a deprimida, pela falta de perspectivas.

Recentemente, um dos alunos surdos do ensino primário disse-lhe (e levou tempo a compreenderem-se) que quando fosse crescido

...queria ser ladrão!

Assim, com toda a naturalidade, já que era uma profissão a que se poderia dedicar, apesar da sua deficiência.

E que outro futuro poderia haver para aquele miúdo?

Sem dúvida, tudo a andar devagar.

 


Fotos do Bairro da Mafalala (Maputo) do fotógrafo O_João


01
Nov 12
publicado por devagar, às 05:53link do post | comentar | ver comentários (3) |

Mudámos de flat (como aqui se diz apartamento) nesta semana, estamos no rescaldo. 

Ou seja, estafados.

Fez-se por etapas, porque aqui tudo se faz devagar.

Não se confia, nem no fundo se acredita que as coisas possam correr bem, sabe-se de histórias de roubos, de dinheiro que se deu de sinal para afinal no dia aprazado ninguém aparecer para o serviço.

Algumas histórias hão-de ser verdadeiras e outras não.

Agora, no rescaldo, vamos aprendendo a vizinhança nova, os novos hábitos e vamos também ouvindo os novos sons.

Agora vivo muito perto de uma mesquita, feita não à escala brutal do dinheiro do petróleo mas a uma escala de culto humanizado, de gente que trabalha, de famílais comuns.

Dos sons diários, há um de que gosto especialmente: o do chamamento do Mu'edhin na madrugada do Maputo, e outras vezes durante o dia, que me traz à memória a grata recordação de outras fases da minha vida, do trabalho que fiz pelos Balcãs, nos meses seguidos que andei a viajar para a Bósnia e Kosovo. E também no Chipre na cidade dividida de Nicosia, ao pé da buffer zone em que se confundem aqueles sons com o dos campanários das igrejas, em despique, cada um do seu lado da green line.

Não é que estes locais sejam propriamente a minha casa, que de facto não são, mas há uma familiaridade de sons que me conforta e me lembra que aquelas coisas em que teimo em acreditar - às vezes ao arrepio do meu dia-a-dia nesta enorme cidade que tudo esmaga impiedosamente, como as enormes trovoadas que põem um travão à normalidade dos nossos dias, nos levam a luz, a internet e deixam a água castanha e as estradas todas esburacadas  e me lembram que a natureza pode sempre mais - afinal, as tais coisas que teimo em querer acreditar, existem e aqui vive-se de facto em multiculturalismo e pluralidade de cultos.

O que, no mundo de hoje, é enorme.

É isto que eu, devagar, aprendo por estas paragens todos os dias e que me faz sentir bem.

 



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