se vai ao longe? ou nunca se chega? Em terras do Índico, vamos abrandar...
31
Mar 13
publicado por devagar, às 11:49link do post | comentar | ver comentários (2) |

Estive 3 semanas na Europa.

Durante as quais, e inexplicavelmente segundo os meus vizinhos (este é um prédio família, tranquilo onde todos se conhecem de há muito), assaltaram o nosso apartamento, em pleno Sábado à tarde, quando por pouco tempo não esteve ninguém em casa, e roubaram despudoradamente pedaços da nossa vida, menos da minha porque levei comigo a parte mais importante da minha informática, mas tudo o que era computador, televisão, óculos escuros graduados, flash pens, leitor de DVD, telemóveis, ténis, tudo foi levado, tudo foi mexido, gavetas esventradas. Pensamos nós por amadores - por aquilo que fizeram e por aquilo que não souberam fazer - gente miserável, sem emprego, com muita vontade de ter e sem a noção mínima do que é ser, com muitas horas de frustração em cima e muitos anúncios vistos na televisão a mostrarem que o ter afinal é que dá felicidade.


Em teoria, percebemos e compreendemos tudo, na prática é muito mais difícil de aceitar.

A polícia foi um filme, com enormes esperas para nada, apenas a sensação de total inoperância e descaso e de que estamos reconhecida e conscientemente sozinhos e temos que tomar as nossas precauções.

E, no fundo de nós mesmos, sentimos que tudo mudou sem retorno.

Correram por aqui versões várias, todas possíveis, mas que nada adiantam porque pouco se faz no sentido de apanhar quem quer que fosse, ou de alterar o status quo, no fundo quem é de cá vai pensando que podemos suportar isto tudo. 

Voltei para uma casa - um espaço com que até agora nos identificámos e que considerámos um porto seguro - sem perceber bem como vou conseguir habitá-lo.


Para já fechadíssima e sem vontade de sair de casa.

Ao falarmos com outras pessoas tomamos conhecimento que já aconteceu a muitos, e temos que nos confrontar com a realidade não mediática mas verdadeiramente real do que de facto é esta cidade. 

Devagar, vamos tentar ultrapassar.  



04
Mar 13
publicado por devagar, às 12:35link do post | comentar |

Já me habituei à pronúncia moçambicana e já consigo descortinar se quem fala estudou a sério ou fez apenas os estudos elementares.

Já reconheço um sotaque diferente mas não consigo perceber a origem, até porque conhecendo já alguma coisa deste todo geográfico, sei que não conheço nem um terço do país que é enorme e não é nada fácil conhecê-lo.

Há até sotaques que me encantam, e expressões deliciosas, uma delas é a forma como dizem, ou melhor entoam 'não é?', que utilizam muito como o 'ins't it?' inglês

Verifico que a língua moçambicana sendo português não o é exactamente, e confesso que se tenho pressa fico irritada, mas sei que não tenho razão. Compreendo que na língua, como em tudo o resto, o moçambicano é altamente criativo e desenrascado.  

Usam por aqui vocábulos de forma diferente, por exemplo, quando se referem ao tempo não dizem que está bom ou mau, dizem que a temperatura está boa ou má; o mesmo com vento, termo que não usam, preferem ventania, que pode ser até uma suave e vagarosa brisa.

Coisas.

Do blog, Africa, This is why I live here

Cortar muitas vezes é dividir (a carne) mas pode ser diminuir (o cabelo) e acabar passa para ultimar num instante. Mala de senhora é pasta, e caixote do lixo é lata, aliás lata é qualquer recipiente da cozinha (fora tachos e panelas).

Quando nos vêem, no balcão do banco por exemplo, perguntam como estamos, ao que respondemos 'bem obrigada', se não dizemos mais nada, ouvimos do outro lado 'eu estou bem'... e temos vontade de nos enfiar num buraco, com receio de termos melindrado, que não é do todo o que queremos.

Temos que estar sempre atentos, para não cometer injustiças.

Mas ás vezes desconseguimos (palavra muito comum).

Há dias, pessoa da tugolândia que me é muito próxima, ao telefone com empregado (que faltava ao serviço por ter a filha de meses internada no hospital mas que confessava ter grande apoio da sogra na companhia que fazia à criança) desconseguiu.

Ou seja, disse sem pensar (ao saber que a avó da criança marcava presença assídua no hospital):

- Então não tens que ficar aí a olhar para o boneco.

Erro colossal.

Ofensa maior.

Ainda hoje o moçambicano não acredita que 'olhar para o boneco' é uma expressão vulgar e não maliciosa.

E esqueceu-se por momentos de um dos imperativos da comunicação intercultural - filtrar antes de dizer.

O difícil convivio da diversidade cultural que fala a mesma língua: devagar. 


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