se vai ao longe? ou nunca se chega? Em terras do Índico, vamos abrandar...
25
Ago 13
publicado por devagar, às 17:05link do post | comentar | ver comentários (8) |

Há aqui um muito grave problema de produtividade, poucas vezes as situações decorrem como se planeou, porque acontece qualquer coisa não prevista.

Já me referi do vírus AF (African Factor), mas a produtividade a que me refiro vai muito para além disso.

Há várias semanas que temos cortes de energia diários, às vezes duram poucos minutos, outras vezes horas. Todos sem préaviso. Com eles falta a net e a televisão também não funciona. Se temos prazos para cumprir que dependam do envio de um email - e para mim quase tudo depende disso - começamos a ver a vida a andar para trás.

É que a produtividade da net é também um problema. Contratámos o serviço da TV Cabo, que nos dizem ser a opção mais funcional e viável, pagamos todos os meses para ter velocidade e capacidade para downloads que nos permita trabalhar sem stress.

Mas não acontece.

Enviar documentos pode ser uma aventura. Há dias demorei cerca de hora e meia para enviar 9 documentos em Word, cada um com cerca de 3 páginas e sem nada pesado. A net estava lenta e tive que enviar dois a dois, como pelo meio caía a luz, tive que recomeçar muitas vezes.

Mas era urgente e eu tenho cara e vergonha.

O que não é o caso de muitas pessoas.

Há dias tínhamos uma reunião marcada com alguém importante e com função cimeira em empresa muito conhecida.

Preparou-se tudo, com pormenor, revisão, cópias, encadernações, horas de fim de semana.

Saímos com tempo para chegar antes da hora. Estacionar o carro na baixa é uma odisseia, envolve sempre dar dinheiro a alguém que promete guardar o carro e que desaparece logo que tem a moeda no bolso. Fica-se com o credo na boca para estar tudo dentro do carro ao regressarmos. Uma vez que chegamos temos ainda que preencher papeis e mostrar identificação para podermos entrar. Um processo que pode ser muito lento. Mas há que manter o sorriso na cara, até porque a opção contrária já foi tentada, mas não obteve êxito.

Foto de Da Ponta do Ouro ao Rovuma (blog)

Esperamos o elevador e dirigimo-nos para o andar onde íamos ter a reunião, porém o interlocutor não estava. Nem tinha ido todo o dia. Nem nos tinham avisado, apesar de terem todos os nossos contactos.

E novamente sorriso na cara, e remarcação para a semana seguinte.

Uma tarde perdida, montes de coisas que poderiam ter sido feitas e foram adiadas - para nada.

Podia referir outras situações, como quando para se desalfandegar um produto que chega de avião porque muito urgente e estando a papelada toda em ordem, nos fazem ir 3 vezes fazer o que é simples e poderia fazer-se de uma vez só.

Foto de Macauhub

Amanhã a FACIM abre ao público, desde há 2 anos que decorre não na cidade do Maputo mas a cerca de 30 km em Marracuene, não há transporte organizado para levar os expositores e todo o pessoal que terá que se deslocar diariamente para o recinto. Maputo está cheia de pessoas que vieram para a feira e que hoje foram até lá para verificar stands e materias, acertar os pormenores de última hora, regressaram cansados e pessimistas, porque tudo estava atrasado e não havia responsáveis com quem falar.

Eu não fiquei nada surpreendida.

Tudo continua a andar extremamente devagar.

 

 


05
Ago 13
publicado por devagar, às 20:39link do post | comentar | ver comentários (4) |

...escrevo aqui sem saber bem porquê. 

Explico: iniciei um projecto light, com humor, amigos saberiam da minha second life no Maputo sem grande esforço, e eu passava a escrito uma experiência social riquíssima e, neste mundo em globalização, potencialmente interessante para muita gente.

À medida que o tempo foi passando, e já há quase 4 anos que iniciei este blog, fui-me apercebendo dos enormes problemas que os Moçambicanos - a gigantesca maioria deles - enfrentam sem esperança no dia-a-dia.

Tem sido crescentemente difícil abster-me desse contexto.

Regressei há dias da Europa, onde fui ver a família e dei um salto a Strasburg, para concluir um projecto. A crise que a Europa enfrenta, e com que Portugal se debate diariamente, é nada comparada com o quotidiano da miséria daqui.

    Lixo nas ruas de Maputo: é assim por todo o lado.

Há mais problemas no país, mais dificuldades no diálogo político e na circulação viária na zona centro, há mais lixo nas ruas, mais mortes nas estradas (por fim de semana no Maputo morrem cerca de 35 pessoas em acidentes de automóvel), e mais cerveja por menos dinheiro: compram-se 3 cervejas por 100 meticais (cerca de 2,5 €). A nova campanha ajuda a manter alta a estatística dos acidentes e faz esquecer o quotidiano pesado: nos fins de semana, pelas ruas do Maputo, há inúmeras barraquinhas onde grupos bebem cerveja a ouvir música que vem das colunas instaladas nas bagageiras dos carros e que bombam um som. Por vezes sentam-se no passeio, ou em caixas de madeira, outros sítios há com cadeiras de plástico...estão todos cheios. E a poluição sonora atinge níveis absolutamente inacreditáveis. 

E de tudo isto se faz o quotidiano de desespero desta cidade.

Mas é um desespero bem disposto e sorridente, e nisto África é única. E talvez seja isso que permite a sobrevivência.

É claro que há outros Maputo, mas são mesmo minoritários, e incluem até gente que muito aprecio, gente que é muito capaz e muito gente, mas compreendo que não vão conseguir fazer a diferença.


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