se vai ao longe? ou nunca se chega? Em terras do Índico, vamos abrandar...
08
Ago 12
publicado por devagar, às 06:38link do post | comentar |

Não é fácil trabalhar em Moçambique.

Os estrangeiros que vêm sem contrato desesperam. Na cabeça trazem as certezas de quem possui conhecimentos mais especializados e skills/competências que os locais ainda desconhecem, para além de um mundo de sonhos que se foi alimentando pela leitura (não critica) da muita matéria altamente inflacionada das oportunidades que existem em Moçambique.

E oportunidades existem, mas muito especificas e nas mãos das grandes corporações (sobretudo a Vale brasileira e a Rio Tinto australiana) que pagam bem e recrutam estrangeiros nas áreas de engenharia, com anúncios que se respondem no conforto caseiro do hemisfério norte onde se aguarda resposta sem se ter vindo para Maputo à espera do milagre.

Há muita falta de bom senso.

Continua a chegar muita gente e muita já veio e já foi, com o dinheiro gasto e muita desilusão acumulada. Porque ao nível do pequeno e do médio as coisas são muito difíceis, o trabalho pouco ou mesmo nenhum, os vistos de trabalho dificilimos e muito caros, a par do alojamento e da vida do dia a dia, que é muito cara.

As condições contextuais são desfavoráveis porque os locais vêem os tugas recém-chegados como concorrência - que de facto são - e fecham-se. E o mercado ressente-se, os tugas fazem preços malucos para entrar no mercado, esquecem-se que o negócio só se conclui depois de cobrada a factura, e quem não consegue esperar...acaba.

O pilão transformado em calha lava-cabeças portátil do cabeleireiro Chipanga

Entre os moçambicanos há alguns jovens e saudáveis movimentos que vêem o empreendedorismo como a resposta possível para o desemprego, estão a organizar-se, estão de facto a empreender e a obter resultados, conhecem o mercado e sabem ver as oportunidades.

 

Estive na semana passada num seminário sobre empreendedorismo, muito bem organizado, com sala cheia, informação de ponta que não é fácil de reunir pelo inexperiente, alguma teoria integradora dos pensamentos desordenados, exemplos de empreendedores bem sucedidos a contar o seu percurso de luta para chegarem onde hoje estão, com destaque para Taibo Bacar, referência da moda moçambicana, sobejamente conhecida nas passereles de Paris e Milão, para a Green Art, empresa de artesanato sustentável que enche as boas lojas de decoração de Manhattan e Paris com peças únicas de artesãos moçambicanos, sofisticadas e certificadas, garantindo os padrões de qualidade que o mercado de luxo internacional exige.

Havia também pequenos empreendedores que expunham os seus produtos e trocavam ideias sobre como se deveriam estruturar, compreendendo a importância do networking (e o empreendedorismo de Angola estava presente) para se expandirem.

 

O balde que aquece a água do banho macua, um sucesso de vendas

Encontrei um mundo de resistentes, que não se deixam vencer pelas dificuldades do dia a dia e que acreditam que se empreenderem ganham eles e ganha todo o país. E todos começaram com muito pouco, uma ideia, um sonho que foram delimitando e construindo, sabendo que para fazer bem tinham que começar devagar.



Parece-me que os que procuram construir ideias de utilidade prática e úteis para o dia-a-dia têm bons objectivos, passíveis de grande sucesso para todos.

Custa-me ver tanta inventividade aplicada ao artesanato decorativo. No entanto parece-me que há muita força por trás do movimento "mais artesanato".

Eu não vejo o turista comprar artesanato. O turista não precisa de artesanato. O turista de hoje poderá comprar uma peça de utilidade feita com "tecnologia de artesanato". Mas peça decorativa de artesanato? Não há em casa de nenhum turista espaço suficiente para tanto artesanato.

O artesanato está em competição com artigos de artesanato decorativo de todo o mundo. Isso é um mercado "muito" competitivo e de baixo rendimento.

Gostaria de ver essa inventividade dirigida para coisas úteis para o mercado interno - uma máquina de lavar "manual", uma prensa de tijolos ecológicos, um fogão que use pouca lenha, sabão artesanal com óleos tropicais, lixívia feita de cinzas, conservas caseiras de frutos tropicais, sei lá que outras mais ideias poderiam surgir dessas mentes productivas.

Mas mais um "esvazia bolsos", mais uma girafa ou elefante, não consigo ver isso a fazer vida para ninguém.

Haverá uma instituição que possa orientar essas ideias? Dirigir esse sangue inovador? Essa vontade de produzir? Essas ganas de viver? Gostaria de ouvir dizer que "sim".
nando a 9 de Agosto de 2012 às 17:06

Todos gostaríamos...
O 'desenvolvimento' faz-se devagar. Aqui as palavras chaves são capacitação (=capacity building) e empoderamento (=empowering).
Aqui sem a dita capacitação seguida de empoderamento as pessoas sentem-se impossibilitadas de fazer o que quer que seja, porque tudo se contabiliza em termos de x pessoas capacitadas e outras x empoderadas.
Pois é...
Espera-se que a capacitação + empoderamento chegue a todo o lado, e as estatísticas baseiam-se na quantidade de... Mas as estatísticas são tão só um instrumento de análise.
É claro que o esforço que se faz é grande, e vai havendo uma consciência ecológica numa geração mais urbana e mais jovem, que se vai organizando.
Daí a marcar a diferença? não sei, mas como dizia Galileu 'ela move-se...'
Quanto ao artesanato, o da GreenArt não se vende na rua, mas em boas lojas depuradas e climatizadas de centros comerciais, bom atendimento, com código de barras, referências e POS's a trabalhar, facturas e possibilidades de troca...e os materiais que usa são sobretudo madeiras nobres e há artesãos a fazer determinadas peças para exportação que ganham muitíssimo bem e a GreenArt não tem os artesãos suficientes (com a qualidade necessária para a certificação).
Na cidade do Maputo, no Jardim dos Continuadores criou-se uma Feira de Artesanato (que tem espaço de crianças e cafés com esplanada e por vezes alguns pequenos eventos culturais como a Feira do Livro) construída pela Cooperação espanhola, em que os artesãos têm stands e recebem formação para não serem insistentes com o turista...e os artesãos saíram da rua, excepção feita à 'Feira do Pau' aos sábados de manhã ao pé da Fortaleza.
Estes processos são lentos e só aceleram quando se viaja, se vê outras coisas, se compara e se pensa. E para pensar é preciso todo este processo.
Ninguém me ensina nada, eu é que aprendo.
E este aprender tem ritmos diferentes e responde às necessidades especificas de cada um.
Daí à consciência ecológica...a Europa na realidade só a tem por imposição top down e alguns movimentos bottom up (e são mesmo só alguns, apesar dos muitos discursos que não reportam a verdade das coisas).
devagar a 10 de Agosto de 2012 às 06:45

Conheço a Feira do Artesanato e a do Pau. Têm trabalhos bonitos, sim. Em 2011 ainda noteis ainda muito assédio por parte dos vendedores no Jardim dos Continuadores, mas muito menos do que na Feira do Pau. Comprámos dois vestidos de capulana para as nossas netas, um esvazia bolsos com girafas e dois anéis que iriam, talvez, servir de anilhas para o lenço de Escuteira da nossa neta mais velha. Mas ambos acabaram sendo pequenos demais, como eu desconfiava. Pensei precisamente num producto artesanal que seria anilhas de Escuteiro. Procurei, não encontrei. Ainda acho que alguém as devia fazer, em Moçambique.

Na Tanzânia, idem aspas a tudo o que tenho comentado, embora o assédio dos vendedores seja muito mais moderado.

Na Feira do Artesanato em Lisboa fiz questão de visitar o "stand" de Moçambique. Coisas muito lindas e muito bem feitas, mas não vi muito interesse. Na feira toda, aliás, o que vi, foi muita gente (mulheres principalmente) a cuscar materiais para, acho eu, fazerem os seus artesanatos.

Toda a feira me deu a impressão que o artesanato é um mercado estagnado. Não vi gente com interesse. Apenas gente a passear.

Acho que se deve aproveitar a capacidade desses artistas para coisas mais úteis no dia-a-dia do comprador. Bolsas, colares, pulseiras, tigelas, bandejas, etc., sim. Elefantes, marimbas, bonecos... por muito giros que sejam, não vejo mercado.

Mas, sinceramente, comento porque gostaria de ver essa gente bem sucedida. Têm tanto talento!

nando a 10 de Agosto de 2012 às 10:56

É mesmo verdade - o ciclo infernal da falta de horizontes e de perspectivas, a ausência de futuro,
o deixa lá e o não faz mal...
Talento não chega mesmo.
devagar a 10 de Agosto de 2012 às 13:01

... pois... é isso aí!
nando a 10 de Agosto de 2012 às 14:27

Será que não há espaço para fazer um ou vários "focus groups" com estas organizações de artesanato? Para sugerir ideias, novas perspectivas, "test cases", oficinas de experimentação?

Sei lá, aplicar algumas ideias de "brainstorming", de investigação, de experimentação?

Se calhar, tem de haver, mas como lá chegar?
nando a 12 de Agosto de 2012 às 16:55

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