se vai ao longe? ou nunca se chega? Em terras do Índico, vamos abrandar...
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Fev 11
publicado por devagar, às 11:27link do post | comentar |

Venho de fora, da Europa evoluída e moderna. Olho para a cidade como outsider, e gosto de observar, de reparar em pormenores, de compreender comportamentos, de me perder por aí, e se não o faço mais é por estar um calor que me impede de passear como gostaria e a que me vou habituando - devagar.

Esta cidade não está organizada para o visitante. Os táxis são poucos, os museus escassos, a pedincheira imensa, os passeios estragados, a praia suja e arriscada, os chapas pejados a tomarem conta das ruas (cheias de buracos), os carros enormes e sem respeito pelo transeunte, os caixotes do lixo sempre cheios, os bairros pobres de ruelas estreitas e de terra batida a rodear a cidade de betão, muita gente na rua, muito barulho, a comunicação com os locais é muito difícil, o português que falam e o que nós usamos distantes a dificultar o diálogo...

A primeira impressão não levará à empatia, sobretudo se quem chega é pouco viajado: o medo retrai as pessoas. Então faz-se o circuito da Av. Julius Nyerere, da cidade branca, dos bons e caríssimos hotéis de luxo, dos bons restaurantes, um salto ao Bazaruto para os endinheirados, uma visita à cosmopolita Nelspruit e ao famoso Kruger Park e a coisa fica por aí.

Mas Maputo é imensa e multi etnica, e disso tenho uma sadia consciência.

Pergunto-me qual o conceito à volta do qual se organizará esta cidade. Quando aqui cheguei descobri coisas à custa de esforços inglórios, lógicas absolutamente inéditas, como a variação de preços dos mesmos bens, em lojas da mesma rua, na casa do dobro e da metade, da dificuldade de encontrar coisas para nós básicas, mas que se calhar não fazem falta nenhuma (chicaras de café), e coisas caríssimas e de um gosto surpreendente, como o tamanho das mobílias. O resultado é que aqui se aprende o despojamento, que nos obriga a repensarmo-nos e simplificarmo-nos, e nos torna - assim esperamos - melhores.

Claro que cidade tem uma lógica, todos os dias se enche e se despeja de gente que trabalha e luta pela sobrevivência, e o facto de não a compreender não confirma a sua inexistência.

E a cidade também tem restos de um passado, cada vez mais distante.

Abasteço-me de coisas que me fazem falta para as minhas actividades de artesanato na Retrosaria Fakir (o nome já diz tanto...), sita no Alto Mahé, bairro popular e maioritariamente monhé. A loja terá 25 m2, é gerida a pulso firme por homens vestidos de branco da cabeça aos pés e mulheres de negro trajadas, também da cabeça aos pés (a afirmarem-se publicamente maometanos), ajudados por muitos africanos, empregados prestativos que se colam aos fregueses ... onde existe tudo o que se possa imaginar. Tem sempre fila à porta - as pessoas têm que bichar, o que os locais abominam e de que não param de se queixar - mas eu nunca espero nem bicho. Porque não me deixam. Assim que me vêem chegar, afastam-se para eu passar, e mesmo que eu não queira a isso sou obrigada. Dentro da loja também tenho atendimento prioritário e de qualidade.

Restos de uma cidade colonial?

Provavelmente.


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