se vai ao longe? ou nunca se chega? Em terras do Índico, vamos abrandar...
04
Mar 13
publicado por devagar, às 12:35link do post | comentar |

Já me habituei à pronúncia moçambicana e já consigo descortinar se quem fala estudou a sério ou fez apenas os estudos elementares.

Já reconheço um sotaque diferente mas não consigo perceber a origem, até porque conhecendo já alguma coisa deste todo geográfico, sei que não conheço nem um terço do país que é enorme e não é nada fácil conhecê-lo.

Há até sotaques que me encantam, e expressões deliciosas, uma delas é a forma como dizem, ou melhor entoam 'não é?', que utilizam muito como o 'ins't it?' inglês

Verifico que a língua moçambicana sendo português não o é exactamente, e confesso que se tenho pressa fico irritada, mas sei que não tenho razão. Compreendo que na língua, como em tudo o resto, o moçambicano é altamente criativo e desenrascado.  

Usam por aqui vocábulos de forma diferente, por exemplo, quando se referem ao tempo não dizem que está bom ou mau, dizem que a temperatura está boa ou má; o mesmo com vento, termo que não usam, preferem ventania, que pode ser até uma suave e vagarosa brisa.

Coisas.

Do blog, Africa, This is why I live here

Cortar muitas vezes é dividir (a carne) mas pode ser diminuir (o cabelo) e acabar passa para ultimar num instante. Mala de senhora é pasta, e caixote do lixo é lata, aliás lata é qualquer recipiente da cozinha (fora tachos e panelas).

Quando nos vêem, no balcão do banco por exemplo, perguntam como estamos, ao que respondemos 'bem obrigada', se não dizemos mais nada, ouvimos do outro lado 'eu estou bem'... e temos vontade de nos enfiar num buraco, com receio de termos melindrado, que não é do todo o que queremos.

Temos que estar sempre atentos, para não cometer injustiças.

Mas ás vezes desconseguimos (palavra muito comum).

Há dias, pessoa da tugolândia que me é muito próxima, ao telefone com empregado (que faltava ao serviço por ter a filha de meses internada no hospital mas que confessava ter grande apoio da sogra na companhia que fazia à criança) desconseguiu.

Ou seja, disse sem pensar (ao saber que a avó da criança marcava presença assídua no hospital):

- Então não tens que ficar aí a olhar para o boneco.

Erro colossal.

Ofensa maior.

Ainda hoje o moçambicano não acredita que 'olhar para o boneco' é uma expressão vulgar e não maliciosa.

E esqueceu-se por momentos de um dos imperativos da comunicação intercultural - filtrar antes de dizer.

O difícil convivio da diversidade cultural que fala a mesma língua: devagar. 


21
Fev 13
publicado por devagar, às 14:08link do post | comentar | ver comentários (2) |

Ainda não me referi aqui ao AF (=african factor) que é mais ou menos um vírus, que ataca muitas vezes e que se resume no seguinte: tudo acontece não como se previa mas de outra maneira, ou com atrasos incompreensíveis. Vou dar alguns exemplos do dia-a-dia.

Hoje fui ao banco levantar cheques. Estava na fila e veio a gerente muito sorridente e simpática ter comigo, porque me viu entrar. Deu-me um envelope com os cheques, eu assinei o papel comprovativo e guardei o envelope. Tinha que ter conferido, o que não fiz em frente à referida senhora porque pensei que seria uma indelicadeza...chego a casa e recebo telefonema a avisar que tinha que ir ao banco amanhã porque não me tinham dado os cheques todos: sorry!

Nem refilei, porque sei que o AF faz com que as coisas não aconteçam à primeira, e já nem estranho quando sistematicamente adiam projectos e reuniões que estavam marcadas e remarcadas. Estive envolvida num projecto que deveria começar em Março e só se deu em Outubro, na precisa semana em que eu mudei de casa: AF.

Vou ao cabeleireiro, onde vou desde que cá cheguei, portanto há já alguns anos, fazer o que faço de todas as vezes que lá vou, e que supostamente está escrito na ficha de cliente (nunca vi tal ficha, mas porque haveria de duvidar da respectiva existência?) e confio os meus cabelos à empregada, porque a proprietária diz com autoridade antes de sair porta fora, que ela estar ou não estar era a mesma coisa, o pessoal sabia o que fazer.

Porém, o cabelo sai de cor alaranjada, as madeixas de um amarelado inqualificável e a rapariga, com o ar impávido de sempre, propõe emendas, de que eu fujo horrorizada e sem pagar.

Na rua ando com à-vontade porque aqui ninguém liga - e a ajuízar pela maneira como se apresentam até devem gostar -  porém vou evitando os locais com gente conhecida porque tenho vergonha.

Demorou uma semana para conseguir reparar o erro, com vários desencontros e eu passei do muito chateada para o conformada com rapidez: afinal era o AF.


A falar com uma amiga moçambicana que é economista, referiu que quem quisesse montar um negócio aqui tinha que fazer estudos com imensas variáveis, o que não era necessário considerar noutros locais, senão tudo saíria errado: e eu dei comigo a pensar no AF.

Quem é de cá leva o AF na boa, nós vamo-nos habituando e com o tempo a coisa vai.

E depois há situações com graça, apesar de trágicas, e que me parece têm uma pitada de AF.

Há dias houve um assalto aos Correios de Marracuene, porque nesse dia os velhinhos iam levantar as pensões (que são miseráveis, mas muitas parcelas pequenas conseguem fazer uma soma interessante) e a televisão foi lá entrevistar alguns dos lesados, que pouco diziam... e as autoridades, convidadas a dizer de sua justiça. Ora, no caso vertente, a autoridade era do género feminino, idade madura, corpo de quem não passa fome, algum cuidado com a imagem porque estava a usar os seus 5 minutos de fama na TV... e referindo-se à premeditação do roubo utilizou estes termos:

Os ladrões fizeram um estudo de viabilidade e resolveram praticar o assalto.

E já ouvimos outras frases únicas, como a situação de alguém que morrera ao atravessar um rio infestado de crocodilos, ou como dizia o repórter com ar grave: a senhora ía a atravessar e foi agredida por um crocodilo.

Por aqui tudo mais ou menos como sempre, ou seja devagar.

Foto do blog Africa, This is Why I live here

 

 


10
Fev 13
publicado por devagar, às 14:00link do post | comentar | ver comentários (6) |

À medida que o tempo passa nós deveríamos habituarmo-nos ao lifestyle daqui e sentirmo-nos cada vez mais adaptados.

Mas nem sempre. Já verifico tudo com cuidado, desde as contas no supermercado, na bomba de gazolina, no cabeleireiro, etc., senão corro o risco de ser enganada. Porém ainda há coisas que são de dificil aceitação. 

Explico algumas situações:

1. Abrir uma conta no banco deveria ser fácil. Mas nem sempre. Tenho uma conta aberta num dos maiores bancos deste país há quase 4 semanas, porém ainda não tenho nem cartão de débito, nem os códigos para o e-banking, nem sequer livro de cheques.

Também desespero quando telefono para a gerente de conta: raras vezes atende à primeira e quando falo com ela não tem uma resposta para a minha pergunta. Diz-me hei-de saber e depois hei-de ligar - o que não acontece. Volto a telefonar se quero alguma informação, que geralmente vem enganada, mas enganos aqui é normal

 

2. Telemóvel que se leva daqui para Lisboa, que se deixa desligado durante todo a estadia, de repente tem uma conta ao regresso absurda, muito alta e inusitada no perfil de cliente. Já regressámos de Lisboa quase há um mês e ainda não conseguimos deslindar este imbroglio. Aqui também nada do que nos dizem que vão fazer acontece. E somos nós que temos que analisar com detalhe o extracto de conta corrente, que nos enviaram em bruto por email, e mostrar as incongruências, desde provar que à data em que nos dizem que fizemos algumas chamadas de Lisboa já estávamos no Maputo (e apresentamos cópia do bilhete de avião) a demonstrar que é impossível fazermos chamadas de 4 minutos, para o mesmo número com segundos de diferença do início das mesmas. Estamos a aguardar: hei-de ligar...

Aqui não se admite um erro com facilidade.

 

3. E neste fim de semana, fruto - dizem - de um erro humano, Maputo, Matola e grande parte da zona sul do país estiveram cerca de 24h sem luz, o que significou problemas MEGA em variadíssimas áreas. Estamos em época de muito calor e tudo descongela num instante nas nossas casa e nos muitos estabelecimentos que vendem congelados e não têm gerador... e como dormir com o ar condicionado ligado é uma necessidade - passámos mal, ou como dizem aqui: sacrificámos!

Mas não fomos poupados ao barulho de uma sexta-feira à noite, como dizia uma amiga: Ainda tens as baterias de carro pra bombar um som, e a luz dos fogareiros dos brais (=churrasco). O people safa-se, a festa é que não para. 

Ninguém explica o que aconteceu, fala-se numa operação rotineira na central eléctrica e nós pensamos que foi alguém que não respeitou os procedimentos.

O apagão levantou muita especulação, porque nesta cidade correm boatos com facilidade.

Hoje havia luz, mas os multibancos nas lojas estavam a funcionar mal, e os ATM's não tinham dinheiro.

O balanço das ocorrências numa cidade às escuras, onde se assalta com muito à-vontade e se conduz de noite sem luzes, também não veio a público, o que por sua vez dá azo a mais boataria...

Uma semana que começa devagar.


31
Jan 13
publicado por devagar, às 17:35link do post | comentar | ver comentários (5) |

Aqui anda tudo num frenesim, estranho porque costuma ser tranquilo quando se vem de férias da tugolândia.

Not this time.

Vive-se a polémica à volta dos novos procedimentos dos vistos. Muitas opiniões, muitas críticas, muitas conversas de café, muitos mails com perguntas, muito debate no facebook. Basicamente há uma selecção apertada e, como eu já venho a referir, não se pode vir à aventura, que custa muito caro.

Conseguir visto não é brincadeira, espera-se horas à porta da embaixada em Lisboa, o preço baixou mas as agências levam mais caro pelo serviço, porque a obtenção do dito visto se tornou mais difícil. E não se pode contar com tirar o visto à entrada, porque esse procedimento já só é possível para os naturais de países sem representação diplomática moçambicana, que não é o caso tuga.

Houve gente que chegou - não foi pouca - e foi obrigada a regressar, porque os papeis não estavam claros e o bilhete de avião era só de vinda (= com visto de turista mas era para ficar e trabalhar). Em consequência, a TAP agora  deixa embarcar com bilhete só de ida apenas a quem tem DIRE (=Direito de Residência), caso contrário tem que ter visto e ida e volta - está farta de recambiar tugas de volta, sem bilhete comprado.

E a coisa tem estado tão complicada que pessoal do consulado português está no aeroporto à chegada dos aviões de Lisboa .. just in case!

E há tugas a ir embora depois de terem perdido o que tinham... e não tinham.

Tinha ouvido dizer, em conversa de café, lá para Novembro do ano que passou, que a entrada indiscriminada de portugueses ía ser travada.

Pois: aconteceu.

E qual é o catch?  

Uma pressão muito forte de profissionais moçambicanos, com estudos e formação, que não querem que as poucas ofertas de emprego sejam ocupadas por estrangeiros. Isso misturado com um complexo (pós) colonial, que estes jovens profissionais são todos nascidos depois da independência, pouco mundo, ambição acompanhada de frustração...o cocktail explosivo do costume.

What's new?

O mesmo que eu ouvi (e tanto que ouvi) os portugueses dizerem dos imigrantes dos países de leste, depois da queda do muro de Berlim, e dos brasileiros (e sobretudo das brasileiras) que antes do Brasil se tornar uma economia emergente e poderosa encheram as cidades do país à beira mar plantado.

Tudo isto em que penso me coíbe de falar muito do que aqui se passa, a sociologia explica, a história também. E é preciso ler e pensar, o que poucos farão e eu quero acreditar que é por falta de tempo, que não de vontade.

Vou vendo o que já vi, e vem-me à memória uma frase de um professor que tive, alma enorme em que penso tantas e tantas vezes: de tudo o que muda o que menos muda é o homem!

E o everyday life da esmagadora maioria dos moçambicanos continua devagar.


19
Jan 13
publicado por devagar, às 20:24link do post | comentar | ver comentários (2) |

Entrar no aeroporto internacional do Maputo vinda de Lisboa é diferente do que quando se vem de Joanesburgo. E é mais simpático quando não se vem de Lisboa.

Explica-se depressa: o avião é menor, há muitos pasageiros com pouca bagagem, que chegam no Domingo para trabalhar no Maputo e na sexta feira partem novamente para passar o fim de semana com a família. É por isso que no aeroporto as autoridades não estão em modo hiper controlo e revista das malas todas para sacar dinheiro aos tugas, sobretudo os inexperientes que vêm naquela da África is beautiful e levam esta intrusão e revista das malas como uma coisa cultural, gira, experiência diferente etc. porque acabadinhos de chegar acham graça a tudo e pensam que é tudo facilidades.

Gosto muito mais de vôos directos, mas confesso que a chegada via Joanesburgo é um mega upgrade no regresso das férias. Em cerca de 10 minutos estavamos a caminho de casa sem revistas nem chateações, quando chega a demorar mais de uma hora no voo directo de Lisboa.

Vai-se aprendendo. 

                                    Escola Portuguesa do Maputo

No Domingo passado regressamos então à cidade, as férias passaram como sempre muito depressa. Havia alguma chuva e calor, mas nada de especial, o que até foi bom para fazermos o que é necessário na casa para por tudo a funcionar e aqui também as coisas correram bem e alegrou-me muito o facto de não ver nem vestígios de baratas.

Na segunda veio a Felismina, sempre igual a si própria, a pedir dinheiro, a ocupar a casa com esfregonas, baldes, embalagens de detergentes e panos de pó, a bater muito nos sofás da sala, hábito que detesto mas que não consigo tirar-lhe porque pensa que limpeza implica esta sova enérgica e sem piedade, e sempre a querer fechar as janelas que eu abro porque a humidade daqui só é suportável dentro de casa com algumas correntes de ar - e explicar-lhe isto? 

Acabou a normalidade.

A chuva começou a cair de manhã, nem parecia chuva demais, mas foi ininterrupta até às 4 da tarde, mais ou menos.

A cidade ficou um caos, os prejuízos incalculáveis, os pobres das zonas mais afectadas ficaram sem tecto, sem água e sem comida, e os ricos sem os carros e com as piscinas cheias de lama ...na Escola Portuguesa foi uma desgraça também.

A natureza aqui está em estado vivo, obras que estavam a decorrer desapareceram, ninguém se entende quanto à ajuda aos necessitados, se deverá ser o Conselho Executivo (=Câmara Municipal) se a Gestão das Calamidades, instituição imprescindível nestas terras onde o clima tem personalidade muito própria e irreverente -  e fala-se da possibilidade de um surto de cólera, dizem estas autoridades que estão preparados - alguém acredita.

No meio da desgraça tivemos sempre luz, televisão e internet, o que é um paradoxo, uma chuvada menor costuma tirar-nos isto tudo..

E a vida continua.

I'm back again e faço as coisas devagar. 

 


14
Dez 12
publicado por devagar, às 06:35link do post | comentar | ver comentários (3) |

O tempo está cada vez mais quente e o ar condicionado trabalha todos os dias mais horas. Falta pouco para o Natal.

Os sul-africanos chegam aos magotes e levam horas de viagem, carregadissimos, com bebidas e comida e com estadias pagas em rand nos bancos sulafricanos... para chegar às praias, designadamente a Ponta do Ouro e Inhambane. Por estes dias, o Tofo parece mais uma colónia de gente loira que outra coisa qualquer. Muita cerveja, muito vinho, muitos braais (=churrasco) muito sol, praia e mergulhos a sério, organizados, com escolas, campeonatos, grupos, equipamento para alugar. E muita gente nas esplanadas e nas ruas à noite, gente nova, música para dançar, cheiro agradável a perfume e a champô.

Maputo fica vazio.

Para mim tudo se relaciona com o Verão - que é a estação que se vive aqui presentemente - e nada com o Natal, mas o natal africano anda por aí e é uma festa de convívio e muita alegria.

O imaginário que se adopta é o do pai natal vestido para o frio - com as mangas compridas, as botas altas e as barbas brancas. Há publicidade na TV com africanos vestidos assim a anunciarem, por exemplo, cartões de crédito, o que para a minha cabeça é uma total aberração, fazendo parte do politicamente incorrecto.

São apenas os meus olhos, que a perspectiva aqui é outra. 

E decerto nem se pensa que o imaginário da neve e do frio, com o pai natal puxado pelas renas a distribuir presentes pelas chaminés (os prédios com chaminés aqui são raríssimos, cozinhava-se a carvão - e ainda se cozinha - ou na marquise aberta ou mesmo no pátio dos prédios; a chaminé na cozinha não existe nos prédios antigos - que são quase todos) faz parte de uma herança colonial talvez um bocadinho hardcore, mas ninguém pensa nisso, o que constitui fenómeno interessantíssimo para uma discussão académica, apesar de não levar a lado nenhum nem concluir coisa alguma. 

A igreja católica, apostólica e romana aqui é muito discreta: não se lhe vê o protagonismo, que provavelmente terá, mas é low-profile. Também aqui a igreja católica é frequentada sobretudo pelos seniores, porque a juventude gosta mais da abordagem das inúmeras igrejas evangélicas que por aqui se vão estabelecendo - com música, dança e convívio.

Aqui gosta-se da vida e gosta-se da festa.

 

Falo com locais e tenho respostas curiosas à minha pergunta 'diz-me lá o que é para ti o Natal?'; para muitos, talvez até a maioria, é mais um feriado que é bem vindo; os que não são cristãos, mas têm alguém na família que está casado/a com um/a tuga, que nem vai à igreja, porém e por causa disso, muçulmanos e hindus, familiares, festejam o natal com ceia e bacalhau e trocam presentes, para agradar o/a tuga; presépio? não existe, só mesmo a árvore de natal; e a data em que se comemora o 'natal' é variável, alguns fazem-no a 21, ou 22, porque é sexta ou sábado e há pessoal em casa para lavar a loiça. E quem festeja a 24 ou 25 e se tiver condições para isso gosta de o fazer com caril de camarão, matapa e à beira da piscina, de preferência.

Nos supermercados há algumas (poucas) decorações de natal à venda, todas com cara de terem saído do armazém onde estavam desde a época passada.  Mas cabazes do natal há para todos os bolsos, sendo os mais modestos em baldes de plástico, que fazem mais falta do que o cesto.... Algumas lojas dos shoppings onde os estrangeiros fazem compras, investem mais um bocadinho nas decorações, mas sem estardalhaço, que a comunidade internacional vai festejar o Natal aos países de origem. E o Bazar da China - que é um bom indicador - terá umas 8 árvores de natal com umas luzes coloridas, mas não vende bolas nem outras decorações. 

O consumismo é que é mega nesta quadra, e quem pode vai fazê-lo na África do Sul, onde alegremente gasta o 13º salário e mais os trocos que tiver e sujeita-se, ano após ano, a filas intermináveis na fronteira, com um calor abrasador, que não penso em experimentar.

Estou a fazer as malas - devagar - para as férias, o frio e o Natal.


05
Dez 12
publicado por devagar, às 10:44link do post | comentar | ver comentários (5) |

Raros são os prédios desta cidade que estão reabilitados, até porque um prédio pintado, que é o que se vê aos poucos e muito devagar por aqui, se bem que com a fachada composta tem mazelas inetriores por vezes incuráveis. Circula informação de que há legislação preparada que obrigará os proprietários a responsabilizações várias, porém no papel, preto no branco: nada.

O parque habitacional é antigo, quase todo da época colonial havendo todos os problemas decorrentes da tecnologia de então.Também porque muitos dos prédios foram construídos por patos bravos - com a falta de sentido estético que lhes conferiu a alcunha depreciativa - que tiveram a sua época áurea a partir dos anos 60, aqui como na metrópole, e que o que queriam mesmo era o lucro rápido.

Então as canalizações, as fossas, as instalações eléctricas, os elevadores....tudo está muito velho sendo poucos os prédios onde os elevadores funcionam. É mais barato arrendar um 10º andar - onde não chega o barulho e a vista é soberba - do que um 1º andar, porque ninguém confia na manutenção dos elevadores e ninguém quer subir 10 andares com compras, ou quando se chega de viagem, ou ainda durante um dos cortes de energia com tudo às escuras... 

Outro dos desesperos da muita idade dos flats do Maputo é só haver uma tomada por assoalhada, que nos obriga ao recurso a extensões e mais extensões, sendo de espantar que os fusíveis aguentem todas as sobrecargas...até tento não pensar demais porque não fico muito tranquila.

É claro que prédio que se digne tem baratas.

Grandes e gordas.

No meu flat novo, agora limpo e a cheirar bem, também havia baratas.

E quando há baratas há que encontrar o antídoto - porque nada simples funcionará que elas já estão habituadas aos baygons - a solução é um pesticida que vem numa seringa, de altíssima toxicidade, e que vem, como quase tudo o que não presta, da China: Imidacloprid 2.15% Cockroaches Bait Gel.

Damos connosco a pensar que numa cidade tão poluída e tão porca onde a ecologia e a reciclagem só preocupam mesmo a minoria da minoria, mais poluente menos poluente...why not? Este raciocínio já me tinha auxiliado a dar cabo das baratas no apartamento onde antes morávamos.

Ora, encontrar o dito pesticida requer persistência e determinação, características muito minhas, que já desesperaram as minhas filhas (a mãe é mesmo chata), mas que me têm servido muito bem na resolução de problemas vários, que mais ninguém se dispõe a resolver.

De tanto perguntar, cheguei a uma situação em que recebi um SMS com o número de telefone de uma senhora que vendia o dito pesticida particularmente. Depois de lhe falar fiquei a saber que o negócio era doméstico e familiar (mãe e filha) uma vendia no Maputo e outra na Matola, nas respectivas casas.

Optei pelo Maputo e telefonei a pedir direcção e indicações.

O bairro é daqueles onde só digo ao meu marido que fui, depois de já ter ido. Não conheço muito expatriado que por lá ande com à-vontade.

Mas eu fui, porque a alternativa era continuar com baratas.

Tudo, absolutamente tudo o que eu perguntei, saiu exactamente ao contrário: onde ela me dizia que eu deveria descer, tive que subir, onde ela me dizia que deveria virar à esquerda, virei à direita, etc.  

Mas, lá está, eu sou persistente: já não tenho baratas em casa.

Como me dizia quem me vendeu uma gota em cada canto da casa e é tiro e queda.

Devagar, vou-me esforçando para esquecer este meu comportamento.

 

 


22
Nov 12
publicado por devagar, às 10:06link do post | comentar | ver comentários (5) |

Ando há cerca de mês e meio a conduzir sem carta de condução, mais precisamente desde que a roubaram na África do Sul.

Passaporte,  DIRE (Direito de Residência), documentos do carro, tudo foi fácil, havendo dinheiro é tudo rápido.

O mesmo não sucede com a minha carta de condução.

Trago na carteira uma declaração da polícia sul-africana, em inglês, que informa que a minha carta de condução fazia parte das coisas que me roubaram.

Vale o que vale, mas penso que não valerá assim tanto se me pararem. Porém, percebi também que não tenho o perfil que a polícia procura quando manda parar os condutores, o que faz todos os dias em vários locais da cidade por onde eu ando com à-vontade. Todos se queixam do excesso de zelo da polícia - menos eu.

Até agora passou-se o seguinte:

No Consulado pedi uma segunda via da carta de condução. Fui informada que não podia ser, a lei obrigava-me a ter carta de condução moçambicana, era necessário pedir para Lisboa um print informático da minha carta de condução, depois seria um processo simples, meramente burocrático.

Disseram-me ainda que quando o tal do print chegasse seria avisada.

Demorou 2 semanas e tal, mas lá veio o email e eu lá fui ao Consulado com 10€ cash para o pagar - não aceitam outra forma de pagamento - concomitantemente, o Consulado enviaria por ofício o mesmo documento ao INAV (Instituto Nacional de Viação), para se dar início ao processo.

Correu menos bem, no Consulado não tinham cópia pora mim (!): 'Por lapso não fizemos cópia...mas já pedimos outra, vai chegar depressa, nós assumimos...' (assumem o quê!?!?), esperei mais de 2 gordas semanas.

Nem revelo as coisas horríveis e as palavras feias que me passaram pela cabeça. E não escrevi ao Cônsul a queixar-me do funcionário, apesar de ter vontade.  

De posse do valiosíssimo print, vou ao INAV. Tenho que pagar para obter informações. Julgo que estão a brincar comigo, mas estou enganada.

Um dos requisitos é obter uma certidão de registo criminal.

Todo um filme.

Este país tem agora a impressão digital de todos os meus dedos, separadamente e em conjunto.

O local onde se pede (numa transversal da Av. 24 de Julho, que tem o sugestivo e queirosiano nome de Rua das Flores)  é exíguo, a fila enorme, não tinha esferográfica comigo, e quem me vendeu os impressos recusou-se a emprestar-me a que tinha na mão. E eu a dizer-lhe que iria preencher o impresso ali mesmo (estive quase a desistir) e a perguntar-lhe porquê ... Respondeu-me que todos lhe pediam a caneta, que não duvidava que eu lha devolvesse, porém depois toda a gente iria pedir-lha, e ela sabia que iria ficar sem a dita.

Compreendi, aceitei que era grave abrir o precedente... e até me solidarizei, não é novidade que por aqui se rouba de tudo e descaradamente.

E fui ao supermercado em frente comprar não uma mas 2 esferográficas porque não vendiam à unidade; onde vendiam, à porta do edifício do Registo Criminal (negócio certo e lucrativo) não me podiam vender porque não tinham troco.

E ainda bem que não desisti, a fila andou depressa. No meio da enorme confusão há uma qualquer organização que põe as coisas a andar e na 2ª feira está pronto.

Decidi contratar alguém para me tratar do que falta - que não é pouca coisa;um pouco na base do em Roma sê romano.

Já não penso mal de ninguém e ando mais sossegada, até porque tenho mais papeis carimbados para a eventualidade de ser parada pela polícia.

Hei-de ter a minha carta de condução, devagar.


14
Nov 12
publicado por devagar, às 16:53link do post | comentar | ver comentários (2) |

Em Moçambique os jovens com menos de 35 anos representam cerca de 78% da população total.

Todos os anos deveriam entrar no mercado de trabalho cerca de 300.000 pessoas, porém o país só tem capacidade para criar 70.000 empregos por ano.


Essa é uma das razões porque a economia informal faz parte do panorama económico nacional, e é um facto que grande parte da população dela depende para a sobrevivência.

Pergunto-me sempre qual poderá ser o futuro de tantos jovens.

Também, pelas mesmas razões, uma grande (enorme) parte da população vive de esquemas, entre eles o roubar tudo o que podem e descaradamente.

É normal empregadas domésticas roubarem comida, detergentes, vasilhame, um dente de alho, uma metade de cebola, um tomate, que com shima e amendoim já faz o jantar lá de casa e a patroa não dá por nada...o grave é quando levam para casa mais do que isso. Não se estranha muito quando o detergente da loiça está mais liquido, sabe-se que uma parte já foi num frasquinho para casa da empregada.

Aprende-se a viver com esta realidade.

Cá em casa temos a sorte de ter uma Felismina - que é pilar da igreja, e anda ali direitinha by the book (no caso, a Bíblia da IUR) e é sempre figura grada a abrilhantar todos os funerais, para o que tem capulana especifica  - temos sorte, dizia eu, que ela não rouba essas coisas. E, quando precisa, pede.

Mas já pegou fogo à casa.

Definitivamente, o mundo não é perfeito, e o Maputo pode ser por vezes um lugar estranho, to say the least.

 

Uma das (rarissimas) pricólogas clinicas moçambicanas queixava-se de que os seus compatriotas não estavam interessados nos seus serviços - o que de facto não me admira nada. Conseguiu uma colocação pelo Ministério da Educação, para dar apoio a jovens com deficiência, que estão integrados no ensino, mas só para inglês ver. O trabalho deixa-a deprimida, pela falta de perspectivas.

Recentemente, um dos alunos surdos do ensino primário disse-lhe (e levou tempo a compreenderem-se) que quando fosse crescido

...queria ser ladrão!

Assim, com toda a naturalidade, já que era uma profissão a que se poderia dedicar, apesar da sua deficiência.

E que outro futuro poderia haver para aquele miúdo?

Sem dúvida, tudo a andar devagar.

 


Fotos do Bairro da Mafalala (Maputo) do fotógrafo O_João


01
Nov 12
publicado por devagar, às 05:53link do post | comentar | ver comentários (3) |

Mudámos de flat (como aqui se diz apartamento) nesta semana, estamos no rescaldo. 

Ou seja, estafados.

Fez-se por etapas, porque aqui tudo se faz devagar.

Não se confia, nem no fundo se acredita que as coisas possam correr bem, sabe-se de histórias de roubos, de dinheiro que se deu de sinal para afinal no dia aprazado ninguém aparecer para o serviço.

Algumas histórias hão-de ser verdadeiras e outras não.

Agora, no rescaldo, vamos aprendendo a vizinhança nova, os novos hábitos e vamos também ouvindo os novos sons.

Agora vivo muito perto de uma mesquita, feita não à escala brutal do dinheiro do petróleo mas a uma escala de culto humanizado, de gente que trabalha, de famílais comuns.

Dos sons diários, há um de que gosto especialmente: o do chamamento do Mu'edhin na madrugada do Maputo, e outras vezes durante o dia, que me traz à memória a grata recordação de outras fases da minha vida, do trabalho que fiz pelos Balcãs, nos meses seguidos que andei a viajar para a Bósnia e Kosovo. E também no Chipre na cidade dividida de Nicosia, ao pé da buffer zone em que se confundem aqueles sons com o dos campanários das igrejas, em despique, cada um do seu lado da green line.

Não é que estes locais sejam propriamente a minha casa, que de facto não são, mas há uma familiaridade de sons que me conforta e me lembra que aquelas coisas em que teimo em acreditar - às vezes ao arrepio do meu dia-a-dia nesta enorme cidade que tudo esmaga impiedosamente, como as enormes trovoadas que põem um travão à normalidade dos nossos dias, nos levam a luz, a internet e deixam a água castanha e as estradas todas esburacadas  e me lembram que a natureza pode sempre mais - afinal, as tais coisas que teimo em querer acreditar, existem e aqui vive-se de facto em multiculturalismo e pluralidade de cultos.

O que, no mundo de hoje, é enorme.

É isto que eu, devagar, aprendo por estas paragens todos os dias e que me faz sentir bem.

 



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