se vai ao longe? ou nunca se chega? Em terras do Índico, vamos abrandar...
10
Fev 13
publicado por devagar, às 14:00link do post | comentar | ver comentários (6) |

À medida que o tempo passa nós deveríamos habituarmo-nos ao lifestyle daqui e sentirmo-nos cada vez mais adaptados.

Mas nem sempre. Já verifico tudo com cuidado, desde as contas no supermercado, na bomba de gazolina, no cabeleireiro, etc., senão corro o risco de ser enganada. Porém ainda há coisas que são de dificil aceitação. 

Explico algumas situações:

1. Abrir uma conta no banco deveria ser fácil. Mas nem sempre. Tenho uma conta aberta num dos maiores bancos deste país há quase 4 semanas, porém ainda não tenho nem cartão de débito, nem os códigos para o e-banking, nem sequer livro de cheques.

Também desespero quando telefono para a gerente de conta: raras vezes atende à primeira e quando falo com ela não tem uma resposta para a minha pergunta. Diz-me hei-de saber e depois hei-de ligar - o que não acontece. Volto a telefonar se quero alguma informação, que geralmente vem enganada, mas enganos aqui é normal

 

2. Telemóvel que se leva daqui para Lisboa, que se deixa desligado durante todo a estadia, de repente tem uma conta ao regresso absurda, muito alta e inusitada no perfil de cliente. Já regressámos de Lisboa quase há um mês e ainda não conseguimos deslindar este imbroglio. Aqui também nada do que nos dizem que vão fazer acontece. E somos nós que temos que analisar com detalhe o extracto de conta corrente, que nos enviaram em bruto por email, e mostrar as incongruências, desde provar que à data em que nos dizem que fizemos algumas chamadas de Lisboa já estávamos no Maputo (e apresentamos cópia do bilhete de avião) a demonstrar que é impossível fazermos chamadas de 4 minutos, para o mesmo número com segundos de diferença do início das mesmas. Estamos a aguardar: hei-de ligar...

Aqui não se admite um erro com facilidade.

 

3. E neste fim de semana, fruto - dizem - de um erro humano, Maputo, Matola e grande parte da zona sul do país estiveram cerca de 24h sem luz, o que significou problemas MEGA em variadíssimas áreas. Estamos em época de muito calor e tudo descongela num instante nas nossas casa e nos muitos estabelecimentos que vendem congelados e não têm gerador... e como dormir com o ar condicionado ligado é uma necessidade - passámos mal, ou como dizem aqui: sacrificámos!

Mas não fomos poupados ao barulho de uma sexta-feira à noite, como dizia uma amiga: Ainda tens as baterias de carro pra bombar um som, e a luz dos fogareiros dos brais (=churrasco). O people safa-se, a festa é que não para. 

Ninguém explica o que aconteceu, fala-se numa operação rotineira na central eléctrica e nós pensamos que foi alguém que não respeitou os procedimentos.

O apagão levantou muita especulação, porque nesta cidade correm boatos com facilidade.

Hoje havia luz, mas os multibancos nas lojas estavam a funcionar mal, e os ATM's não tinham dinheiro.

O balanço das ocorrências numa cidade às escuras, onde se assalta com muito à-vontade e se conduz de noite sem luzes, também não veio a público, o que por sua vez dá azo a mais boataria...

Uma semana que começa devagar.


31
Jan 13
publicado por devagar, às 17:35link do post | comentar | ver comentários (5) |

Aqui anda tudo num frenesim, estranho porque costuma ser tranquilo quando se vem de férias da tugolândia.

Not this time.

Vive-se a polémica à volta dos novos procedimentos dos vistos. Muitas opiniões, muitas críticas, muitas conversas de café, muitos mails com perguntas, muito debate no facebook. Basicamente há uma selecção apertada e, como eu já venho a referir, não se pode vir à aventura, que custa muito caro.

Conseguir visto não é brincadeira, espera-se horas à porta da embaixada em Lisboa, o preço baixou mas as agências levam mais caro pelo serviço, porque a obtenção do dito visto se tornou mais difícil. E não se pode contar com tirar o visto à entrada, porque esse procedimento já só é possível para os naturais de países sem representação diplomática moçambicana, que não é o caso tuga.

Houve gente que chegou - não foi pouca - e foi obrigada a regressar, porque os papeis não estavam claros e o bilhete de avião era só de vinda (= com visto de turista mas era para ficar e trabalhar). Em consequência, a TAP agora  deixa embarcar com bilhete só de ida apenas a quem tem DIRE (=Direito de Residência), caso contrário tem que ter visto e ida e volta - está farta de recambiar tugas de volta, sem bilhete comprado.

E a coisa tem estado tão complicada que pessoal do consulado português está no aeroporto à chegada dos aviões de Lisboa .. just in case!

E há tugas a ir embora depois de terem perdido o que tinham... e não tinham.

Tinha ouvido dizer, em conversa de café, lá para Novembro do ano que passou, que a entrada indiscriminada de portugueses ía ser travada.

Pois: aconteceu.

E qual é o catch?  

Uma pressão muito forte de profissionais moçambicanos, com estudos e formação, que não querem que as poucas ofertas de emprego sejam ocupadas por estrangeiros. Isso misturado com um complexo (pós) colonial, que estes jovens profissionais são todos nascidos depois da independência, pouco mundo, ambição acompanhada de frustração...o cocktail explosivo do costume.

What's new?

O mesmo que eu ouvi (e tanto que ouvi) os portugueses dizerem dos imigrantes dos países de leste, depois da queda do muro de Berlim, e dos brasileiros (e sobretudo das brasileiras) que antes do Brasil se tornar uma economia emergente e poderosa encheram as cidades do país à beira mar plantado.

Tudo isto em que penso me coíbe de falar muito do que aqui se passa, a sociologia explica, a história também. E é preciso ler e pensar, o que poucos farão e eu quero acreditar que é por falta de tempo, que não de vontade.

Vou vendo o que já vi, e vem-me à memória uma frase de um professor que tive, alma enorme em que penso tantas e tantas vezes: de tudo o que muda o que menos muda é o homem!

E o everyday life da esmagadora maioria dos moçambicanos continua devagar.


19
Jan 13
publicado por devagar, às 20:24link do post | comentar | ver comentários (2) |

Entrar no aeroporto internacional do Maputo vinda de Lisboa é diferente do que quando se vem de Joanesburgo. E é mais simpático quando não se vem de Lisboa.

Explica-se depressa: o avião é menor, há muitos pasageiros com pouca bagagem, que chegam no Domingo para trabalhar no Maputo e na sexta feira partem novamente para passar o fim de semana com a família. É por isso que no aeroporto as autoridades não estão em modo hiper controlo e revista das malas todas para sacar dinheiro aos tugas, sobretudo os inexperientes que vêm naquela da África is beautiful e levam esta intrusão e revista das malas como uma coisa cultural, gira, experiência diferente etc. porque acabadinhos de chegar acham graça a tudo e pensam que é tudo facilidades.

Gosto muito mais de vôos directos, mas confesso que a chegada via Joanesburgo é um mega upgrade no regresso das férias. Em cerca de 10 minutos estavamos a caminho de casa sem revistas nem chateações, quando chega a demorar mais de uma hora no voo directo de Lisboa.

Vai-se aprendendo. 

                                    Escola Portuguesa do Maputo

No Domingo passado regressamos então à cidade, as férias passaram como sempre muito depressa. Havia alguma chuva e calor, mas nada de especial, o que até foi bom para fazermos o que é necessário na casa para por tudo a funcionar e aqui também as coisas correram bem e alegrou-me muito o facto de não ver nem vestígios de baratas.

Na segunda veio a Felismina, sempre igual a si própria, a pedir dinheiro, a ocupar a casa com esfregonas, baldes, embalagens de detergentes e panos de pó, a bater muito nos sofás da sala, hábito que detesto mas que não consigo tirar-lhe porque pensa que limpeza implica esta sova enérgica e sem piedade, e sempre a querer fechar as janelas que eu abro porque a humidade daqui só é suportável dentro de casa com algumas correntes de ar - e explicar-lhe isto? 

Acabou a normalidade.

A chuva começou a cair de manhã, nem parecia chuva demais, mas foi ininterrupta até às 4 da tarde, mais ou menos.

A cidade ficou um caos, os prejuízos incalculáveis, os pobres das zonas mais afectadas ficaram sem tecto, sem água e sem comida, e os ricos sem os carros e com as piscinas cheias de lama ...na Escola Portuguesa foi uma desgraça também.

A natureza aqui está em estado vivo, obras que estavam a decorrer desapareceram, ninguém se entende quanto à ajuda aos necessitados, se deverá ser o Conselho Executivo (=Câmara Municipal) se a Gestão das Calamidades, instituição imprescindível nestas terras onde o clima tem personalidade muito própria e irreverente -  e fala-se da possibilidade de um surto de cólera, dizem estas autoridades que estão preparados - alguém acredita.

No meio da desgraça tivemos sempre luz, televisão e internet, o que é um paradoxo, uma chuvada menor costuma tirar-nos isto tudo..

E a vida continua.

I'm back again e faço as coisas devagar. 

 


05
Dez 12
publicado por devagar, às 10:44link do post | comentar | ver comentários (5) |

Raros são os prédios desta cidade que estão reabilitados, até porque um prédio pintado, que é o que se vê aos poucos e muito devagar por aqui, se bem que com a fachada composta tem mazelas inetriores por vezes incuráveis. Circula informação de que há legislação preparada que obrigará os proprietários a responsabilizações várias, porém no papel, preto no branco: nada.

O parque habitacional é antigo, quase todo da época colonial havendo todos os problemas decorrentes da tecnologia de então.Também porque muitos dos prédios foram construídos por patos bravos - com a falta de sentido estético que lhes conferiu a alcunha depreciativa - que tiveram a sua época áurea a partir dos anos 60, aqui como na metrópole, e que o que queriam mesmo era o lucro rápido.

Então as canalizações, as fossas, as instalações eléctricas, os elevadores....tudo está muito velho sendo poucos os prédios onde os elevadores funcionam. É mais barato arrendar um 10º andar - onde não chega o barulho e a vista é soberba - do que um 1º andar, porque ninguém confia na manutenção dos elevadores e ninguém quer subir 10 andares com compras, ou quando se chega de viagem, ou ainda durante um dos cortes de energia com tudo às escuras... 

Outro dos desesperos da muita idade dos flats do Maputo é só haver uma tomada por assoalhada, que nos obriga ao recurso a extensões e mais extensões, sendo de espantar que os fusíveis aguentem todas as sobrecargas...até tento não pensar demais porque não fico muito tranquila.

É claro que prédio que se digne tem baratas.

Grandes e gordas.

No meu flat novo, agora limpo e a cheirar bem, também havia baratas.

E quando há baratas há que encontrar o antídoto - porque nada simples funcionará que elas já estão habituadas aos baygons - a solução é um pesticida que vem numa seringa, de altíssima toxicidade, e que vem, como quase tudo o que não presta, da China: Imidacloprid 2.15% Cockroaches Bait Gel.

Damos connosco a pensar que numa cidade tão poluída e tão porca onde a ecologia e a reciclagem só preocupam mesmo a minoria da minoria, mais poluente menos poluente...why not? Este raciocínio já me tinha auxiliado a dar cabo das baratas no apartamento onde antes morávamos.

Ora, encontrar o dito pesticida requer persistência e determinação, características muito minhas, que já desesperaram as minhas filhas (a mãe é mesmo chata), mas que me têm servido muito bem na resolução de problemas vários, que mais ninguém se dispõe a resolver.

De tanto perguntar, cheguei a uma situação em que recebi um SMS com o número de telefone de uma senhora que vendia o dito pesticida particularmente. Depois de lhe falar fiquei a saber que o negócio era doméstico e familiar (mãe e filha) uma vendia no Maputo e outra na Matola, nas respectivas casas.

Optei pelo Maputo e telefonei a pedir direcção e indicações.

O bairro é daqueles onde só digo ao meu marido que fui, depois de já ter ido. Não conheço muito expatriado que por lá ande com à-vontade.

Mas eu fui, porque a alternativa era continuar com baratas.

Tudo, absolutamente tudo o que eu perguntei, saiu exactamente ao contrário: onde ela me dizia que eu deveria descer, tive que subir, onde ela me dizia que deveria virar à esquerda, virei à direita, etc.  

Mas, lá está, eu sou persistente: já não tenho baratas em casa.

Como me dizia quem me vendeu uma gota em cada canto da casa e é tiro e queda.

Devagar, vou-me esforçando para esquecer este meu comportamento.

 

 


22
Nov 12
publicado por devagar, às 10:06link do post | comentar | ver comentários (5) |

Ando há cerca de mês e meio a conduzir sem carta de condução, mais precisamente desde que a roubaram na África do Sul.

Passaporte,  DIRE (Direito de Residência), documentos do carro, tudo foi fácil, havendo dinheiro é tudo rápido.

O mesmo não sucede com a minha carta de condução.

Trago na carteira uma declaração da polícia sul-africana, em inglês, que informa que a minha carta de condução fazia parte das coisas que me roubaram.

Vale o que vale, mas penso que não valerá assim tanto se me pararem. Porém, percebi também que não tenho o perfil que a polícia procura quando manda parar os condutores, o que faz todos os dias em vários locais da cidade por onde eu ando com à-vontade. Todos se queixam do excesso de zelo da polícia - menos eu.

Até agora passou-se o seguinte:

No Consulado pedi uma segunda via da carta de condução. Fui informada que não podia ser, a lei obrigava-me a ter carta de condução moçambicana, era necessário pedir para Lisboa um print informático da minha carta de condução, depois seria um processo simples, meramente burocrático.

Disseram-me ainda que quando o tal do print chegasse seria avisada.

Demorou 2 semanas e tal, mas lá veio o email e eu lá fui ao Consulado com 10€ cash para o pagar - não aceitam outra forma de pagamento - concomitantemente, o Consulado enviaria por ofício o mesmo documento ao INAV (Instituto Nacional de Viação), para se dar início ao processo.

Correu menos bem, no Consulado não tinham cópia pora mim (!): 'Por lapso não fizemos cópia...mas já pedimos outra, vai chegar depressa, nós assumimos...' (assumem o quê!?!?), esperei mais de 2 gordas semanas.

Nem revelo as coisas horríveis e as palavras feias que me passaram pela cabeça. E não escrevi ao Cônsul a queixar-me do funcionário, apesar de ter vontade.  

De posse do valiosíssimo print, vou ao INAV. Tenho que pagar para obter informações. Julgo que estão a brincar comigo, mas estou enganada.

Um dos requisitos é obter uma certidão de registo criminal.

Todo um filme.

Este país tem agora a impressão digital de todos os meus dedos, separadamente e em conjunto.

O local onde se pede (numa transversal da Av. 24 de Julho, que tem o sugestivo e queirosiano nome de Rua das Flores)  é exíguo, a fila enorme, não tinha esferográfica comigo, e quem me vendeu os impressos recusou-se a emprestar-me a que tinha na mão. E eu a dizer-lhe que iria preencher o impresso ali mesmo (estive quase a desistir) e a perguntar-lhe porquê ... Respondeu-me que todos lhe pediam a caneta, que não duvidava que eu lha devolvesse, porém depois toda a gente iria pedir-lha, e ela sabia que iria ficar sem a dita.

Compreendi, aceitei que era grave abrir o precedente... e até me solidarizei, não é novidade que por aqui se rouba de tudo e descaradamente.

E fui ao supermercado em frente comprar não uma mas 2 esferográficas porque não vendiam à unidade; onde vendiam, à porta do edifício do Registo Criminal (negócio certo e lucrativo) não me podiam vender porque não tinham troco.

E ainda bem que não desisti, a fila andou depressa. No meio da enorme confusão há uma qualquer organização que põe as coisas a andar e na 2ª feira está pronto.

Decidi contratar alguém para me tratar do que falta - que não é pouca coisa;um pouco na base do em Roma sê romano.

Já não penso mal de ninguém e ando mais sossegada, até porque tenho mais papeis carimbados para a eventualidade de ser parada pela polícia.

Hei-de ter a minha carta de condução, devagar.


14
Nov 12
publicado por devagar, às 16:53link do post | comentar | ver comentários (2) |

Em Moçambique os jovens com menos de 35 anos representam cerca de 78% da população total.

Todos os anos deveriam entrar no mercado de trabalho cerca de 300.000 pessoas, porém o país só tem capacidade para criar 70.000 empregos por ano.


Essa é uma das razões porque a economia informal faz parte do panorama económico nacional, e é um facto que grande parte da população dela depende para a sobrevivência.

Pergunto-me sempre qual poderá ser o futuro de tantos jovens.

Também, pelas mesmas razões, uma grande (enorme) parte da população vive de esquemas, entre eles o roubar tudo o que podem e descaradamente.

É normal empregadas domésticas roubarem comida, detergentes, vasilhame, um dente de alho, uma metade de cebola, um tomate, que com shima e amendoim já faz o jantar lá de casa e a patroa não dá por nada...o grave é quando levam para casa mais do que isso. Não se estranha muito quando o detergente da loiça está mais liquido, sabe-se que uma parte já foi num frasquinho para casa da empregada.

Aprende-se a viver com esta realidade.

Cá em casa temos a sorte de ter uma Felismina - que é pilar da igreja, e anda ali direitinha by the book (no caso, a Bíblia da IUR) e é sempre figura grada a abrilhantar todos os funerais, para o que tem capulana especifica  - temos sorte, dizia eu, que ela não rouba essas coisas. E, quando precisa, pede.

Mas já pegou fogo à casa.

Definitivamente, o mundo não é perfeito, e o Maputo pode ser por vezes um lugar estranho, to say the least.

 

Uma das (rarissimas) pricólogas clinicas moçambicanas queixava-se de que os seus compatriotas não estavam interessados nos seus serviços - o que de facto não me admira nada. Conseguiu uma colocação pelo Ministério da Educação, para dar apoio a jovens com deficiência, que estão integrados no ensino, mas só para inglês ver. O trabalho deixa-a deprimida, pela falta de perspectivas.

Recentemente, um dos alunos surdos do ensino primário disse-lhe (e levou tempo a compreenderem-se) que quando fosse crescido

...queria ser ladrão!

Assim, com toda a naturalidade, já que era uma profissão a que se poderia dedicar, apesar da sua deficiência.

E que outro futuro poderia haver para aquele miúdo?

Sem dúvida, tudo a andar devagar.

 


Fotos do Bairro da Mafalala (Maputo) do fotógrafo O_João


01
Nov 12
publicado por devagar, às 05:53link do post | comentar | ver comentários (3) |

Mudámos de flat (como aqui se diz apartamento) nesta semana, estamos no rescaldo. 

Ou seja, estafados.

Fez-se por etapas, porque aqui tudo se faz devagar.

Não se confia, nem no fundo se acredita que as coisas possam correr bem, sabe-se de histórias de roubos, de dinheiro que se deu de sinal para afinal no dia aprazado ninguém aparecer para o serviço.

Algumas histórias hão-de ser verdadeiras e outras não.

Agora, no rescaldo, vamos aprendendo a vizinhança nova, os novos hábitos e vamos também ouvindo os novos sons.

Agora vivo muito perto de uma mesquita, feita não à escala brutal do dinheiro do petróleo mas a uma escala de culto humanizado, de gente que trabalha, de famílais comuns.

Dos sons diários, há um de que gosto especialmente: o do chamamento do Mu'edhin na madrugada do Maputo, e outras vezes durante o dia, que me traz à memória a grata recordação de outras fases da minha vida, do trabalho que fiz pelos Balcãs, nos meses seguidos que andei a viajar para a Bósnia e Kosovo. E também no Chipre na cidade dividida de Nicosia, ao pé da buffer zone em que se confundem aqueles sons com o dos campanários das igrejas, em despique, cada um do seu lado da green line.

Não é que estes locais sejam propriamente a minha casa, que de facto não são, mas há uma familiaridade de sons que me conforta e me lembra que aquelas coisas em que teimo em acreditar - às vezes ao arrepio do meu dia-a-dia nesta enorme cidade que tudo esmaga impiedosamente, como as enormes trovoadas que põem um travão à normalidade dos nossos dias, nos levam a luz, a internet e deixam a água castanha e as estradas todas esburacadas  e me lembram que a natureza pode sempre mais - afinal, as tais coisas que teimo em querer acreditar, existem e aqui vive-se de facto em multiculturalismo e pluralidade de cultos.

O que, no mundo de hoje, é enorme.

É isto que eu, devagar, aprendo por estas paragens todos os dias e que me faz sentir bem.

 



02
Out 12
publicado por devagar, às 08:21link do post | comentar | ver comentários (4) |

... e com ele o fim do tempo seco, o recurso geral ao ar condicionado, o corpo a pedir duche quase todo o dia. Cansa, e deixa saudades, porque sem o calor a África não o é.

O trabalho começa a apertar, até ao Natal é sempre a abrir. Na aparente calma e inactividade, Maputo excede-se neste trimestre, e aqui em casa já começamos a sentir a pressão.

As ruas, porém, continuam iguais, turistas que aqui vêm, a aproveitar as passagens de avião ainda a custos suportáveis, não se apercebem deste frenesim que começa a pressionar tanta gente.

Mas esta cidade tem a sua personalidade e lifestyle, a bem dizer, únicos.

Alfaiates do mercado de Xipamanine.

Os atrasos de pessoas, de burocracia, de pagamentos, de aviões (a LAM pratica muito o overbooking doméstico, e deixa os passageiros em terra, à espera de lugar no avião, às vezes dias) de decisões (em certas empresas os chefes demoram a assinar a papelada do despacho - tudo muito depassé - com tremendas implicações nos custos e na produtividade), enfim, os atrasos de quase tudo continuam - mas ninguém se espanta.

Devagar.

Os carros que andam na rua são ou muito bons, 4x4 de alta gama, ou velhinhos e persistentes, a necessitar de muita oficina ou de bilhete de ida para a sucata. O transporte público, (os chapas fazem o que querem, e se têm um frete para fora do Maputo, deixam os passageiros à espera...) continua deficiente, as regras de trânsito cumprem-se pouco e os acidentes de automóvel , sobretudo nos fins de semana, são altamente mortíferos. A noite do Maputo continua perigosa, com polícias a comportarem-se como ladrões e a roubarem os turistas (confira artigo do espanhol El Mundo de 30 de Setembro aqui).

Mas quem vive por cá sabe contornar, aproveita o Sol, cultiva a amizade, boa mesa e melhor companhia, no café ao fim da tarde encontra-se sempre com quem conversar e nos fins de semana aproveitam-se os amigos e os afectos, porque é o melhor que a cidade proporciona, com memoráveis sundowners, hábito profundamente africano/colonial, a deitar conversa fora, sentados numa esplanada a ver o movimento dos navios, ou das pessoas. 

E disso gosta-se maningue.

E há coisas fantasticamente naif que descobrimos, só mesmo nesta cidade:

Na Av. Julius Nyerere, onde estão os melhores hotéis



22
Set 12
publicado por devagar, às 15:15link do post | comentar |

No prédio onde moro há um guarda que se chama Castigo e me trata por mãe.

A minha neta quando cá veio, na inocência da infância, não acreditou que aquela criatura pudesse ter tal nome e ficou um pouco incomodada com a forma como ele me tratava, mas depois habituou-se, à medida que foi ouvindo tanta gente na rua a chamar-me assim. E compreendeu o que significa respeitar-se outra cultura, o que é admirável quando se tem 8 anos, e é o valor acrescentado de se viajar nos mundos da diversidade cultural.

Os nomes aqui - e na generalidade da África negra - têm uma sonoridade específica, que nos surpreende até nos acostumarmos, e uma lógica muito própria cuja compreensão necessita ter-se nascido aqui, pertencer-se a esta cultura.

Eu explico: é necessário aceitar com naturalidade estes nomes, devido à carga negativa que acarretam, ou à dramatização que implicam.

Conheço uma rapariga, moderna, boa profissional e de sorriso franco, que leva com imenso à-vontade um nome próprio que os pais lhe deram por a considerarem um erro nas suas vidas, a Erónea (aqui um só r é carregado e os dois rr não, vá-se lá saber porquê) se vivesse nos States estaria semanalmente no divã do psi para conseguir lidar com o trauma brutal do nome que os pais lhe tinham dado, mesmo que entretanto já o tivesse alterado para um qualquer mais inócuo em termos psi.

E há quem se chame Sofrimento, Relógio, Seis Hora (assim mesmo, hora no singular, tal como o povo fala por aqui). Mais na ruralidade, mas em Maputo também existem.

Os apelidos também têm outra musicalidade: Olumene, Zunguze, Matavel, Langa, Cossa, Munjovo, Macuácua, Magalojo, Mitava, Tumba...escrevem-se com frequência nas colunas dos jornais. 

E há muitos nomes de origem muçulmana a que o ouvido europeu está pouco habituado, que pode consultar aqui, que nos remetem para outras realidades e vivências, e essa diversidade que se vê por todo o lado é um livro aberto de muitas aprendizagens. Isto para quem quer aprender, porque ou se nasceu aqui e a diversidade é banal, ou se vem de fora e se trás uma série de preconceitos, de julgamentos e de comparações que não servem para nada e criam imensos problemas.


As pessoas com muitos anos d'África contam histórias engraçadas relativas aos nomes, uma delas sobre uma senhora que em diálogo de contratação  de um empregado, depois de ouvir com detalhe e mais do que uma repetição o nome do candidato, que não conseguia fixar por estranho que lhe parecia,  disse-lhe pois...mas eu vou chamar-te Pedro, e Pedro ficou, sem trauma e até com algum orgulho, mas os tempos eram outros. 

Estou a referir-me a meados do século passado, altura em que se dizia criado, e havia toda uma carreira desde o pequenino do quintal, que fazia recados e trabalhos avulso até ao criado de dentro, verdadeiro braço direito da dona de casa actuando quase como uma extensão do poder de que aquela dispunha, passando pelo mainato, que lavava e engomava a roupa.

Há alguns dias estava eu na loja da Vodacom na Julius Nyerere quando a pessoa que estava à minha frente (negro, jovem adulto e bem apessoado) teve que dizer o nome para fazer o registo do telemóvel.

Disse: João Joaquim ... não gosto nada do meu nome, claro que lhe perguntaram porquê, e ele respondeu que João era o patrão do pai, Joaquim um branco português importante da terra e o pai dera-lhe esse nome, e ele pensava que gostava de ter um nome africano com que se identificasse e não um nome composto pelas reverências do pai - um assimilado - em época colonial...

Continua tudo devagar.


 

 

 

By Ian Plaskett, photo posted in the blog Africa, This is why I live here


12
Set 12
publicado por devagar, às 15:55link do post | comentar | ver comentários (3) |

Setembro é um mês de transições.

O período começa com a FACIM. A feira trás uma profusão de gente de fora, convencida que vem fazer grandes negócios, que de facto são aqui feitos mas pelas grandes corporações, que não expõem - claro está - na FACIM. Os pequenos por cá andam uma semaninha, distribuem muitos cartões e vão-se embora: mas sente-se que a época começou, é a rentrée mozambican style

Interessante é ver as celebridades lusas que nos vêm visitar - e eu questiono-me sempre quais os motivos por detrás do investimento. Este ano a grande surpresa foi o Isaltino Morais, que chegou com enorme séquito, jantaradas maningue e muitos amigos e amigas. O circuito do costume: restaurantes da moda, com o incontornável salto ao mais económico e famoso Piri-Piri, mesa enorme e cheia da sua barulhenta corte, ida às praias maravilhosas e saltinho ao Kruger.

O tempo está um pouco incerto e ora temos dias (relativamente) frios e sem sol, que é coisa raríssima e põe os moçambicanos, de gema ou sem o ser, completamente malucos, porque o frio e a humidade que se enfia por nós adentro incomoda sobremaneira, calculo (confesso aqui que com algum prazer) que o vento tremendo que nos assolou tenha incomodado bastante o grupo do Isaltino Morais. O que reforça a ideia de que há certas forças que conspiram mais a favor dos justos que dos outros.

Os europeus regressaram das férias, na escola portuguesa já começaram as aulas e pelas embaixadas e cooperações internacionais realinham-se as to do lists, revêem-se prioridades, lêem-se propostas, marcam-se reuniões, seleccionam-se os eventos em que se vai participar.

Os universitários bolseiros partem para a África do Sul, Europa e States para começarem ou continuarem os seus estudos, os pais ficam tristes mas depois a máquina trituradora da vida de trabalho toma conta deles e há sempre o skipe que ajuda os que partem e os que ficam.

 

Nós por cá vamos andando, alguns à espera do milagre da riqueza - ou a vertigem do carvão e do gás natural -  que todos os dias é apregoada nos jornais, mas que dizem os entendidos não produzirá efeitos significativos nas populações senão daqui a uma década, apesar de já estarem a engordar certas contas offshore, segundo dizem as más línguas.

As infraestruturas que irão permitir a farta exploração dos ditos recursos estão em fase de projecto e construção...No entretanto, a pensão completa da segurança social é de 200 meticais por mês e os pobres e mendigos sobrevivem ninguém sabe como. Diz-se muito que o velho aqui é respeitado, foi no passado mas os valores africanos estão também em grande sobressalto e a vida urbana é para os fortes e endinheirados, os desprotegidos nada têm a seu favor no Maputo, onde os problemas são gravissimos e os avisados bem alertam para a violência que eles suportam, a nível físico e psicológico.

 

Na minha casa está tudo igual, a Felismina anda a caminhar todos os dias para o hospital onde a filha problemática está internada, sabe-se lá com quê, desconfio eu que com qualquer coisa de grave, porque as semanas vão passando e a situação continua sem melhoras, e a Felismina a mourejar todos os dias a levar comida e água e a cantar afincadamente ao Jesus da IURD, que ela diz lhe dá tudo quanto precisa.

E agora que a poeira começou a assentar, tudo continua a andar devagar, que é o ritmo a que já me habituei e de que vou gostando, até porque o ditado nos diz - e eu começo a acreditar - que depressa e bem não há quem, e as notícias que me chegam da tugolândia vão-me dizendo que os brancos estão todos doidos...

E os dias estão a crescer e o calor está a chegar.

... 'tá-se bem!

 


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