se vai ao longe? ou nunca se chega? Em terras do Índico, vamos abrandar...
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Mai 13
publicado por devagar, às 09:39link do post | comentar |

Tem vindo a escassear o tempo de que disponho para fazer coisas de que gosto. Há por aqui fases de picos de trabalho - é o caso agora - e é de aproveitar porque não se sabe quando será a próxima,  nem os fins de semana escapam e o Devagar tem-se ressentido.

Como se diz por aqui: sorry (que significa desde o 'desculpe' ao 'temos pena').

A Felismina anda numa enorme excitação. Pediu-nos, toda encolhida e as palavras a saírem-lhe a custo, o subsídio de natal adiantado para fim do mês e juntamente com o ordenado. Essa quantia, explicou-nos, mais o tchiquit, iria servir para comprar uma geleira (= frigorífico) que já não aguenta viver sem ela.

Disse-nos que decidira assim porque prefere sacrificar a sofrer, num emaranhado de conceitos físicos e psicológicos, confusos para mim mas claríssimos para ela. Dissemos-lhe a tudo que sim, inclusive que iríamos ajudar na compra, e entrou por ela uma alegria que chega a ser contagiante.

Isto tudo depois de ela ter pensado coisas muito más, porque tendo tido uma gripe ficou com tosse que persistia em não querer ir embora. Na altura, disse-lhe que lhe ía comprar xarope, mas depois meti-me no escritório a traduzir e esqueci-me. Até ao dia - quente como só em África - em que me chega de manhã com um gorro de lã enfiado na cabeça.

Felismina, o que se passa? é a tosse senhora

mas Felismina o que é que a tosse tem a ver com o gorro na cabeça?

senhora é o que me diz uma vizinha, esta tosse é muito má, pode ser doença muito má

e apurei que a dita vizinha já a tinha mandado tomar gotas de limão com whisky, sendo o gorro de lã a alternativa ao alcance da bolsa magra da Felismina.

Nesse dia mea culpa comprei o xarope, ela começou a tomar e dias depois já não tossia. Foi então que ela se convenceu que não tinha uma doença grave, e vai daí resolveu comprar a geleira.

 

Mas como é senhora dona do seu nariz, vai fazê-lo sem dizer nada nem ao marido - a quem chama Sr. Paulo - nem à família. Há-de chegar a casa ao mesmo tempo que a geleira, para fazer surpresa, e tudo isso será motivo para festa, da grande e da boa.

Acresce explicar que o tchiquit é um esquema do bairro, entre um grupo de amigas (neste caso, porque há imensas variantes) em que todos os meses do ordenado se faz um bolo - cada uma dá uma parte - e esse bolo rotativamente é gasto por uma delas, naquilo que lhe faz mais falta.

A Felismina não costumava participar em nenhum tchiquit mas para comprar a geleira - e desde que não tem tosse - aventurou-se.

Além do mais, a filha que ela tem com problemas de saúde recebeu um certificado de incapacidade, que lhe dá direito mensalmente a boa quantidade de arroz, farinha de trigo e de milho, feijão, óleo, açúcar e amendoim, que a Felismina vai buscar de manhã muito cedo para não ficar horas na fila.

Nesse dia entra mais tarde cá em casa e trás à cabeça cerca de 25 quilos, orgulhosos e satisfeitos, que a fazem esperar à tarde por um chapa que a deixe entrar com aquele atavio, porque o chapa está ali para fazer dinheiro com muitas pessoas e o carrego da Felismina só poderá entrar quando o número de passageiros começar a diminuir.

Há anos que queria uma geleira e é agora que a vai ter.

Tudo portanto devagar.


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