se vai ao longe? ou nunca se chega? Em terras do Índico, vamos abrandar...
12
Nov 13
publicado por devagar, às 19:53link do post | comentar | ver comentários (1) |

Maputo está diferente desde que os raptos de 3 pessoas da comunidade portuguesa foram divulgados nos principais meios de comunicação social.

Não é algo perceptível ao primeiro olhar, é preciso já cá estar há algum tempo para absorver esta onda triste e silenciosa que vai percorrendo amigos e conhecidos e persiste em não desaparecer. As pessoas não gostam de verificar a sua própria impotência perante os acontecimentos que se deram e fizeram o pleno nalguns jornais portugueses que enviaram jornalistas de primeira água para reportar.


O ambiente pesado que se vive resulta também da percepção de aquilo que parecia ser um caminho seguro e sustentável para o desenvolvimento poder, de repente, deixar de ser uma certeza e não ser nem caminho, nem seguro, nem sustentável.

Os restaurantes à noite têm pouca gente, os parques infantis estão sem crianças, as pessoas questionam-se se isto irá passar ou continuar e por quanto tempo, e esta incerteza gera altos níveis de ansiedade.

Obras aprazadas vão-se adiando, compras orçamentadas também - já agora o melhor é esperar.

Amigos de cá dizem-me que estas situações não são inéditas, que se verificam em países em desenvolvimento, perante o aparecimentos de abundantes recursos naturais, dizem-me também que são situações que não perduram. E todos queremos acreditar que sim.

As recomendações do Consulado mantêm-se: muita cautela, não facilitar, e chegam por mail e facebook.

Também me chegam emails sobre o que fazer no caso de ser raptado e como reagir a SMS ou chamadas ameaçadoras.

E há pessoas que não saem de casa, tolhidas pelo medo, ficam presas nessa armadilha.

Coisas que há pouco tempo não fariam sentido nenhum.

Há uma evidente contenção social a par de uma vontade (muito) decidida de se acreditar num futuro novamente normal, com problemas normais.

A rotina, o dia-a-dia sem surpresas, a vida calma desta cidade, coisas que de repente todos (re)valorizam tanto.

Tudo mesmo devagar.

 


16
Set 13
publicado por devagar, às 10:09link do post | comentar | ver comentários (6) |

Aquele provérbio contado ninguém acredita...aplica-se ao que vou escrever.

As grandes empresas  têm um mega trabalho a escrever e aplicar procedimentos. Fazer tudo by the book é muito difícil quanto mais não seja porque universalmente se resiste à mudança. Há empresas que trabalham nonstop e que por isso organizam o trabalho em turnos. E, porque o trabalho é pesado, incluem pausas e snacks. O que a malta até aceita na boa, não fosse o snack ser uma barra de cereais. O snack é difícil de engolir, porque nem se gosta, nem enche barriga, nem dá gozo nenhum. E nem vale a pena falar-se em regras de higiene ou calor que deteriora os alimentos. O que se quer é arroz e patas de galinha, que se roem com o maior prazer e não fazem mal a ninguém.

Outros exemplos do contado ninguém acredita:

O casamento tradicional é o casamento, os outros poderão ter algum interesse mas o tradicional tem o estatuto mais elevado. Inclui um coro que canta (e bem) e que o faz durante um tempo longo, independentemente de quaisquer outras considerações, mesmo num prédio, ocupando as escadas por onde ninguém mais passa, a horas despropositadas.

No posto da gasolina não devemos arriscar dizer para encherem com X meticais, porque se leva tudo à letra, e mesmo que venha por fora continua-se até fazer aquele montante.

Quando se vai apanhar um voo interno, mesmo com bilhetes confirmados e reconfirmados, temos que ter cuidado e chegar mesmo cedo, porque se não temos cautela alguém que estava em lista de espera foi posto no nosso lugar, e remeteram-nos a nós para a dita lista de espera sem fazer cerimónia, e depois já de nada vale reclamar.

Nas grandes empresas o controlo do combustível gasto pela frota automóvel, em relação aos quilómetros feitos, é tarefa árdua e tantas vezes inglória; há sempre quem roube e dizem até que ser condutor de um veículo pesado é o mesmo que possuir um ATM, e quanto maior e mais pesado for o veículo, mais recheado estará o ATM.

De facto, os incautos que pararem no meio da estrada com falta de combustível longe de tudo e todos, podem contar que aparece alguém com combustível para vender (extraído dos ATM que circulam nas estradas), e é preciso negociar para pagar um preço razoável, até porque esta é a única assistência na estrada.

E é assim, e tudo isto a fazer-se sempre devagar.


05
Ago 13
publicado por devagar, às 20:39link do post | comentar | ver comentários (4) |

...escrevo aqui sem saber bem porquê. 

Explico: iniciei um projecto light, com humor, amigos saberiam da minha second life no Maputo sem grande esforço, e eu passava a escrito uma experiência social riquíssima e, neste mundo em globalização, potencialmente interessante para muita gente.

À medida que o tempo foi passando, e já há quase 4 anos que iniciei este blog, fui-me apercebendo dos enormes problemas que os Moçambicanos - a gigantesca maioria deles - enfrentam sem esperança no dia-a-dia.

Tem sido crescentemente difícil abster-me desse contexto.

Regressei há dias da Europa, onde fui ver a família e dei um salto a Strasburg, para concluir um projecto. A crise que a Europa enfrenta, e com que Portugal se debate diariamente, é nada comparada com o quotidiano da miséria daqui.

    Lixo nas ruas de Maputo: é assim por todo o lado.

Há mais problemas no país, mais dificuldades no diálogo político e na circulação viária na zona centro, há mais lixo nas ruas, mais mortes nas estradas (por fim de semana no Maputo morrem cerca de 35 pessoas em acidentes de automóvel), e mais cerveja por menos dinheiro: compram-se 3 cervejas por 100 meticais (cerca de 2,5 €). A nova campanha ajuda a manter alta a estatística dos acidentes e faz esquecer o quotidiano pesado: nos fins de semana, pelas ruas do Maputo, há inúmeras barraquinhas onde grupos bebem cerveja a ouvir música que vem das colunas instaladas nas bagageiras dos carros e que bombam um som. Por vezes sentam-se no passeio, ou em caixas de madeira, outros sítios há com cadeiras de plástico...estão todos cheios. E a poluição sonora atinge níveis absolutamente inacreditáveis. 

E de tudo isto se faz o quotidiano de desespero desta cidade.

Mas é um desespero bem disposto e sorridente, e nisto África é única. E talvez seja isso que permite a sobrevivência.

É claro que há outros Maputo, mas são mesmo minoritários, e incluem até gente que muito aprecio, gente que é muito capaz e muito gente, mas compreendo que não vão conseguir fazer a diferença.


07
Jun 13
publicado por devagar, às 13:51link do post | comentar | ver comentários (2) |

Ainda tenho alguma dificuldade - talvez cada vez menos - em lidar com o que, à primeira vista, consideraría falta de consideração.

É uma forma de estar que vai ao arrepio do conceito, como eu o entendo, mas não a generalidade dos Moçambicanos.

E depois há situações paradoxais.

Vou tentar explicar.

É normalíssimo ouvir buzinadelas poderosamente sonoras na cidade. Se vamos no trânsito, e por qualquer razão não arrancamos logo no sinal verde (ou por alguma situação com semelhante importância) levamos com o buzinão, de um automóvel com o que nos parece ser um condutor incapaz de procedimentos de condução menos correctos, mas que passado pouco tempo pára a viatura a despropósito, e incomoda toda a gente e fica impávido.

As carrinhas do transporte escolar buzinam, para chamar as crianças que não estão na paragem, de forma tão sonora que se apanham valentes sustos, sobretudo quando são 6 e qualquer coisa da manhã e ainda se está na fase de acordar.

Os vizinhos ouvem a música que querem e lhes apetece com o voulume no máximo, em qualquer ponto da cidade, mas sobretudo ao fim de semana, sem pensarem poder - eventualmente - incomodar qualquer pessoa.

Photo credit: Marcus Westberg, www.lifeThroughAlens.com 

A empregada (no meu caso a Felismina) que entra de manhã, tendo um de nós aberto a porta para ela entrar (e aqui as portas são duplas, uma de madeira e a outra - a de segurança que à noite leva os cadeados - de ferro, tipo portão alto) fica à espera que façamos o serviço completo e deixa-nos pendurados, porque não abre nem fecha pelo menos o portão. Não é distracção, porque o rapaz que trata dos meus impostos faz o mesmo, a senhoria da nossa antiga casa idem aspas, aliás, essa quando vinha receber a renda ficava, já à saída, que nem uma estátua ao pé das portas à espera, e se nós não abríssemos as duas ainda hoje lá estaríamos todos.

Eu sempre a estranhar o comportamento, mas já confirmei que não é inédito.

Vamos de carro numa artéria movimentada, um peão resolve atravessar, não respeita semáforos, atravessa onde lhe apraz e anda muito devagar, obrigando-nos a travar e abrandar, desconsiderando-se acima de tudo a si próprio, porque ser atropelado nesta terra não é brincadeira, até porque as urgências dos hospitais não primam pelo bom e célere atendimento.

Mas há outro tipo de situações, as paradoxais.

Photo credit: Marcus Westberg, www.lifeThroughAlens.com

Se vamos na rua e dizemos bom dia a um guarda (que é mais ou menos o porteiro e que tem uma vida regalada pois passa o dia sentado numa cadeira na rua à porta do prédio ou vivenda que 'guarda', a falar com os outros guardas das casas vizinhas) ele responde bom dia obrigado (com delicadeza).

Se vamos ao banco (por exemplo) fazer um depósito com alguém que até nunca vimos, podemos ouvir um bom dia como está (em resposta ao nosso bom dia) ao que respondemos bem obrigada e entregamos o cheque para depósito, porque lá está time is money e não estamos ali para grandes conversas, e ouvimos eu também estou bem, e percebemos que metemos água e fomos nós os autores da desconsideração.

Do que eu gosto mesmo é quando estamos ao telefone e não precisamos de pedir para repetirem quando não percebemos, basta dizer desculpe, que vem logo a repetição, o que torna tudo mais simples, rápido e civilizado.

É por situações destas que eu não sei se as outras são desconsiderações, mas penso que não serão. 


11
Mai 13
publicado por devagar, às 09:39link do post | comentar |

Tem vindo a escassear o tempo de que disponho para fazer coisas de que gosto. Há por aqui fases de picos de trabalho - é o caso agora - e é de aproveitar porque não se sabe quando será a próxima,  nem os fins de semana escapam e o Devagar tem-se ressentido.

Como se diz por aqui: sorry (que significa desde o 'desculpe' ao 'temos pena').

A Felismina anda numa enorme excitação. Pediu-nos, toda encolhida e as palavras a saírem-lhe a custo, o subsídio de natal adiantado para fim do mês e juntamente com o ordenado. Essa quantia, explicou-nos, mais o tchiquit, iria servir para comprar uma geleira (= frigorífico) que já não aguenta viver sem ela.

Disse-nos que decidira assim porque prefere sacrificar a sofrer, num emaranhado de conceitos físicos e psicológicos, confusos para mim mas claríssimos para ela. Dissemos-lhe a tudo que sim, inclusive que iríamos ajudar na compra, e entrou por ela uma alegria que chega a ser contagiante.

Isto tudo depois de ela ter pensado coisas muito más, porque tendo tido uma gripe ficou com tosse que persistia em não querer ir embora. Na altura, disse-lhe que lhe ía comprar xarope, mas depois meti-me no escritório a traduzir e esqueci-me. Até ao dia - quente como só em África - em que me chega de manhã com um gorro de lã enfiado na cabeça.

Felismina, o que se passa? é a tosse senhora

mas Felismina o que é que a tosse tem a ver com o gorro na cabeça?

senhora é o que me diz uma vizinha, esta tosse é muito má, pode ser doença muito má

e apurei que a dita vizinha já a tinha mandado tomar gotas de limão com whisky, sendo o gorro de lã a alternativa ao alcance da bolsa magra da Felismina.

Nesse dia mea culpa comprei o xarope, ela começou a tomar e dias depois já não tossia. Foi então que ela se convenceu que não tinha uma doença grave, e vai daí resolveu comprar a geleira.

 

Mas como é senhora dona do seu nariz, vai fazê-lo sem dizer nada nem ao marido - a quem chama Sr. Paulo - nem à família. Há-de chegar a casa ao mesmo tempo que a geleira, para fazer surpresa, e tudo isso será motivo para festa, da grande e da boa.

Acresce explicar que o tchiquit é um esquema do bairro, entre um grupo de amigas (neste caso, porque há imensas variantes) em que todos os meses do ordenado se faz um bolo - cada uma dá uma parte - e esse bolo rotativamente é gasto por uma delas, naquilo que lhe faz mais falta.

A Felismina não costumava participar em nenhum tchiquit mas para comprar a geleira - e desde que não tem tosse - aventurou-se.

Além do mais, a filha que ela tem com problemas de saúde recebeu um certificado de incapacidade, que lhe dá direito mensalmente a boa quantidade de arroz, farinha de trigo e de milho, feijão, óleo, açúcar e amendoim, que a Felismina vai buscar de manhã muito cedo para não ficar horas na fila.

Nesse dia entra mais tarde cá em casa e trás à cabeça cerca de 25 quilos, orgulhosos e satisfeitos, que a fazem esperar à tarde por um chapa que a deixe entrar com aquele atavio, porque o chapa está ali para fazer dinheiro com muitas pessoas e o carrego da Felismina só poderá entrar quando o número de passageiros começar a diminuir.

Há anos que queria uma geleira e é agora que a vai ter.

Tudo portanto devagar.


12
Abr 13
publicado por devagar, às 06:12link do post | comentar |

Aqui ninguém se refere ao tempo como estando bom, mau, frio ou quente, o termo usado e vulgarizado é a temperatura. Que já vai pregando partidas e começa a descer. Mínimas abaixo de 20ºC já deixam muita gente com frio e fazem aparecer as golas altas pelas ruas, mesmo no pico da máxima diária de 28ºC.

Hábitos são isso mesmo.

Eu dou comigo a gostar deste tempo, a dispensar o ar condicionado non-stop e percebo que tem a ver com os muitos anos vividos na costa atlântica europeia.

Estive nos últimos dias numa formação relacionada com o tema de recursos humanos, de que gostei particularmente e me faz dizer que aqui o alto potencial humano existe e atinge também níveis de excelência, e afirmo-o porque conheço bem o standard do bom trabalho na Europa.

E o mundo do saber tem poucas divisões, na formação que frequentei trabalhou-se o que se repete também incessantemente no Conselho da Europa ou na London School of Economics, a capacidade de adaptação das pessoas a diferentes contextos faz toda a diferença e permite sair com facilidade da zona de conforto e entrar no mundo do where things happen. Ontem até nas notícias de Portugal se referia que o critério de recrutamento de engenheiros portugueses para trabalhar fora de Portugal designadamente na Noruega, dependia para além da licenciatura da capacidade de adaptação.


foto de Marcus Westberg, www.LifeThroughALens.com

Se eu quiser ligar isto à temperatura, tal como os moçambicanos a concebem, direi que esse poderá ser o busílis da questão. O Moçambicano tem horror ao frio mas conheço quem vá/foi procurar formação e certificação noutros países, mesmo no pleno Inverno Europeu. Mas não é qualquer um.

Tenho para mim que este movimento de gentes, o contacto com os outros, o comparar soluções, o enfrentar o dia-a-dia do struggle for life, a capacidade de não julgar pelo prisma dos preconceitos e estereótipos mas de observar e de aprender está na base dessa capacidade de adaptação.

Aqui há uma geração de profissionais extremamente competentes, discretos, low profile e virados para os resultados. Jovens. Todos com experiência profissional fora do país e com assertividade profissional. Gosto disso e do facto de perceber que como existem os que conheço, existirão certamente outros núcleos de excelência.

Quantos? não sei.

Dar o salto do elementar, da escolaridade que é quase e só uma alfabetização, sair do limiar da pobreza é um passo gigantesco que se dá colectivamente: é política do Estado e objectivo do milénio das Nações Unidas. Muitas organizações no terreno só se podem dedicar ao imediato, que por si só é um mundo: vacinação, controlo da malária, diarreia e pneumonia, que matam muitos e todos os dias porque isso é indiscutivelmente essencial (trabalho sério financiado em muitos países da África subsaariana pela Fundação Bill & Melinda Gates).

Mas há uma altura em que mesmo alguns que têm uma vida de privilégio, acomodada e fácil, sentem a sede de saber - que é um vírus que neste mundo global só ataca alguns - e a vontade de sair da zona de conforto, que aqui é muito sufocante, e rasgar os seus horizontes.

Uma minoria. 

Devagar, esse grupo vai-se fortalecendo, mesmo que o pior seja a temperatura. 


04
Mar 13
publicado por devagar, às 12:35link do post | comentar |

Já me habituei à pronúncia moçambicana e já consigo descortinar se quem fala estudou a sério ou fez apenas os estudos elementares.

Já reconheço um sotaque diferente mas não consigo perceber a origem, até porque conhecendo já alguma coisa deste todo geográfico, sei que não conheço nem um terço do país que é enorme e não é nada fácil conhecê-lo.

Há até sotaques que me encantam, e expressões deliciosas, uma delas é a forma como dizem, ou melhor entoam 'não é?', que utilizam muito como o 'ins't it?' inglês

Verifico que a língua moçambicana sendo português não o é exactamente, e confesso que se tenho pressa fico irritada, mas sei que não tenho razão. Compreendo que na língua, como em tudo o resto, o moçambicano é altamente criativo e desenrascado.  

Usam por aqui vocábulos de forma diferente, por exemplo, quando se referem ao tempo não dizem que está bom ou mau, dizem que a temperatura está boa ou má; o mesmo com vento, termo que não usam, preferem ventania, que pode ser até uma suave e vagarosa brisa.

Coisas.

Do blog, Africa, This is why I live here

Cortar muitas vezes é dividir (a carne) mas pode ser diminuir (o cabelo) e acabar passa para ultimar num instante. Mala de senhora é pasta, e caixote do lixo é lata, aliás lata é qualquer recipiente da cozinha (fora tachos e panelas).

Quando nos vêem, no balcão do banco por exemplo, perguntam como estamos, ao que respondemos 'bem obrigada', se não dizemos mais nada, ouvimos do outro lado 'eu estou bem'... e temos vontade de nos enfiar num buraco, com receio de termos melindrado, que não é do todo o que queremos.

Temos que estar sempre atentos, para não cometer injustiças.

Mas ás vezes desconseguimos (palavra muito comum).

Há dias, pessoa da tugolândia que me é muito próxima, ao telefone com empregado (que faltava ao serviço por ter a filha de meses internada no hospital mas que confessava ter grande apoio da sogra na companhia que fazia à criança) desconseguiu.

Ou seja, disse sem pensar (ao saber que a avó da criança marcava presença assídua no hospital):

- Então não tens que ficar aí a olhar para o boneco.

Erro colossal.

Ofensa maior.

Ainda hoje o moçambicano não acredita que 'olhar para o boneco' é uma expressão vulgar e não maliciosa.

E esqueceu-se por momentos de um dos imperativos da comunicação intercultural - filtrar antes de dizer.

O difícil convivio da diversidade cultural que fala a mesma língua: devagar. 


14
Nov 12
publicado por devagar, às 16:53link do post | comentar | ver comentários (2) |

Em Moçambique os jovens com menos de 35 anos representam cerca de 78% da população total.

Todos os anos deveriam entrar no mercado de trabalho cerca de 300.000 pessoas, porém o país só tem capacidade para criar 70.000 empregos por ano.


Essa é uma das razões porque a economia informal faz parte do panorama económico nacional, e é um facto que grande parte da população dela depende para a sobrevivência.

Pergunto-me sempre qual poderá ser o futuro de tantos jovens.

Também, pelas mesmas razões, uma grande (enorme) parte da população vive de esquemas, entre eles o roubar tudo o que podem e descaradamente.

É normal empregadas domésticas roubarem comida, detergentes, vasilhame, um dente de alho, uma metade de cebola, um tomate, que com shima e amendoim já faz o jantar lá de casa e a patroa não dá por nada...o grave é quando levam para casa mais do que isso. Não se estranha muito quando o detergente da loiça está mais liquido, sabe-se que uma parte já foi num frasquinho para casa da empregada.

Aprende-se a viver com esta realidade.

Cá em casa temos a sorte de ter uma Felismina - que é pilar da igreja, e anda ali direitinha by the book (no caso, a Bíblia da IUR) e é sempre figura grada a abrilhantar todos os funerais, para o que tem capulana especifica  - temos sorte, dizia eu, que ela não rouba essas coisas. E, quando precisa, pede.

Mas já pegou fogo à casa.

Definitivamente, o mundo não é perfeito, e o Maputo pode ser por vezes um lugar estranho, to say the least.

 

Uma das (rarissimas) pricólogas clinicas moçambicanas queixava-se de que os seus compatriotas não estavam interessados nos seus serviços - o que de facto não me admira nada. Conseguiu uma colocação pelo Ministério da Educação, para dar apoio a jovens com deficiência, que estão integrados no ensino, mas só para inglês ver. O trabalho deixa-a deprimida, pela falta de perspectivas.

Recentemente, um dos alunos surdos do ensino primário disse-lhe (e levou tempo a compreenderem-se) que quando fosse crescido

...queria ser ladrão!

Assim, com toda a naturalidade, já que era uma profissão a que se poderia dedicar, apesar da sua deficiência.

E que outro futuro poderia haver para aquele miúdo?

Sem dúvida, tudo a andar devagar.

 


Fotos do Bairro da Mafalala (Maputo) do fotógrafo O_João


01
Nov 12
publicado por devagar, às 05:53link do post | comentar | ver comentários (3) |

Mudámos de flat (como aqui se diz apartamento) nesta semana, estamos no rescaldo. 

Ou seja, estafados.

Fez-se por etapas, porque aqui tudo se faz devagar.

Não se confia, nem no fundo se acredita que as coisas possam correr bem, sabe-se de histórias de roubos, de dinheiro que se deu de sinal para afinal no dia aprazado ninguém aparecer para o serviço.

Algumas histórias hão-de ser verdadeiras e outras não.

Agora, no rescaldo, vamos aprendendo a vizinhança nova, os novos hábitos e vamos também ouvindo os novos sons.

Agora vivo muito perto de uma mesquita, feita não à escala brutal do dinheiro do petróleo mas a uma escala de culto humanizado, de gente que trabalha, de famílais comuns.

Dos sons diários, há um de que gosto especialmente: o do chamamento do Mu'edhin na madrugada do Maputo, e outras vezes durante o dia, que me traz à memória a grata recordação de outras fases da minha vida, do trabalho que fiz pelos Balcãs, nos meses seguidos que andei a viajar para a Bósnia e Kosovo. E também no Chipre na cidade dividida de Nicosia, ao pé da buffer zone em que se confundem aqueles sons com o dos campanários das igrejas, em despique, cada um do seu lado da green line.

Não é que estes locais sejam propriamente a minha casa, que de facto não são, mas há uma familiaridade de sons que me conforta e me lembra que aquelas coisas em que teimo em acreditar - às vezes ao arrepio do meu dia-a-dia nesta enorme cidade que tudo esmaga impiedosamente, como as enormes trovoadas que põem um travão à normalidade dos nossos dias, nos levam a luz, a internet e deixam a água castanha e as estradas todas esburacadas  e me lembram que a natureza pode sempre mais - afinal, as tais coisas que teimo em querer acreditar, existem e aqui vive-se de facto em multiculturalismo e pluralidade de cultos.

O que, no mundo de hoje, é enorme.

É isto que eu, devagar, aprendo por estas paragens todos os dias e que me faz sentir bem.

 



12
Set 12
publicado por devagar, às 15:55link do post | comentar | ver comentários (3) |

Setembro é um mês de transições.

O período começa com a FACIM. A feira trás uma profusão de gente de fora, convencida que vem fazer grandes negócios, que de facto são aqui feitos mas pelas grandes corporações, que não expõem - claro está - na FACIM. Os pequenos por cá andam uma semaninha, distribuem muitos cartões e vão-se embora: mas sente-se que a época começou, é a rentrée mozambican style

Interessante é ver as celebridades lusas que nos vêm visitar - e eu questiono-me sempre quais os motivos por detrás do investimento. Este ano a grande surpresa foi o Isaltino Morais, que chegou com enorme séquito, jantaradas maningue e muitos amigos e amigas. O circuito do costume: restaurantes da moda, com o incontornável salto ao mais económico e famoso Piri-Piri, mesa enorme e cheia da sua barulhenta corte, ida às praias maravilhosas e saltinho ao Kruger.

O tempo está um pouco incerto e ora temos dias (relativamente) frios e sem sol, que é coisa raríssima e põe os moçambicanos, de gema ou sem o ser, completamente malucos, porque o frio e a humidade que se enfia por nós adentro incomoda sobremaneira, calculo (confesso aqui que com algum prazer) que o vento tremendo que nos assolou tenha incomodado bastante o grupo do Isaltino Morais. O que reforça a ideia de que há certas forças que conspiram mais a favor dos justos que dos outros.

Os europeus regressaram das férias, na escola portuguesa já começaram as aulas e pelas embaixadas e cooperações internacionais realinham-se as to do lists, revêem-se prioridades, lêem-se propostas, marcam-se reuniões, seleccionam-se os eventos em que se vai participar.

Os universitários bolseiros partem para a África do Sul, Europa e States para começarem ou continuarem os seus estudos, os pais ficam tristes mas depois a máquina trituradora da vida de trabalho toma conta deles e há sempre o skipe que ajuda os que partem e os que ficam.

 

Nós por cá vamos andando, alguns à espera do milagre da riqueza - ou a vertigem do carvão e do gás natural -  que todos os dias é apregoada nos jornais, mas que dizem os entendidos não produzirá efeitos significativos nas populações senão daqui a uma década, apesar de já estarem a engordar certas contas offshore, segundo dizem as más línguas.

As infraestruturas que irão permitir a farta exploração dos ditos recursos estão em fase de projecto e construção...No entretanto, a pensão completa da segurança social é de 200 meticais por mês e os pobres e mendigos sobrevivem ninguém sabe como. Diz-se muito que o velho aqui é respeitado, foi no passado mas os valores africanos estão também em grande sobressalto e a vida urbana é para os fortes e endinheirados, os desprotegidos nada têm a seu favor no Maputo, onde os problemas são gravissimos e os avisados bem alertam para a violência que eles suportam, a nível físico e psicológico.

 

Na minha casa está tudo igual, a Felismina anda a caminhar todos os dias para o hospital onde a filha problemática está internada, sabe-se lá com quê, desconfio eu que com qualquer coisa de grave, porque as semanas vão passando e a situação continua sem melhoras, e a Felismina a mourejar todos os dias a levar comida e água e a cantar afincadamente ao Jesus da IURD, que ela diz lhe dá tudo quanto precisa.

E agora que a poeira começou a assentar, tudo continua a andar devagar, que é o ritmo a que já me habituei e de que vou gostando, até porque o ditado nos diz - e eu começo a acreditar - que depressa e bem não há quem, e as notícias que me chegam da tugolândia vão-me dizendo que os brancos estão todos doidos...

E os dias estão a crescer e o calor está a chegar.

... 'tá-se bem!

 


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